terça-feira, 2 de junho de 2015

SUGESTÃO LEGAL: MILAN KUNDERA - RISÍVEIS AMORES



 Risíveis Capa

“Era um quartinho com duas camas, uma mesa, uma cadeira e uma pia. O rapaz empurrou o ferrolho da porta e se virou para a moça. Ela ficou diante dele, numa atitude provocante, com uma sensualidade insolente no olhar. Ele olhava para ela e se esforçava para descobrir por trás daquela expressão lasciva os traços familiares que amava com ternura. Era como olhar para duas imagens na mesma objetiva, duas imagens superpostas que aparecessem em transparência uma através da outra. Essas duas imagens superpostas lhe diziam que a namorada podia conter tudo, que sua alma era atrozmente indefinida, que tanto podia existir nela a fidelidade como a infidelidade, a traição como a inocência, a sedução como o pudor; essa mistura selvagem lhe parecia tão repugnante quanto a confusão de um depósito de lixo. As duas imagens superpostas apareciam, sempre em transparência, uma embaixo da outra, e o rapaz compreendia que a diferença entre a namorada e as outras mulheres era uma diferença muito superficial, que, nas vastas profundezas do seu ser, a namorada era semelhante às outras mulheres, com todos os pensamentos, todos os sentimentos, todos os vícios possíveis, o que justificava suas dúvidas e seus ciúmes secretos; que a impressão de contornos a delimitar sua personalidade era apenas uma ilusão a que sucumbia o outro, aquele que a olhava, isto é, ele mesmo. Pensava que aquela moça, tal como a  amava, era apenas um produto de seu desejo, de seu pensamento abstrato, de sua confiança, e que a namorada, tal como era realmente, era aquela mulher que estava ali, diante dele, desesperadamente outra, desesperadamente estranha, desesperadamente polimorfa. Ela a detestava.”

In Risíveis amores, Milan Kundera, Companhia das Letras, SP, 2012.

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