quarta-feira, 30 de setembro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 4:

 
Encontro com o mal

O tempo é incômodo. Um escritor deveria ter o privilégio de reificar sua imaginação nas encruzilhadas mais lunares da vida; incapaz de fazê-lo - e talvez fosse horrível fazê-lo - ele se contenta com enfileirar palavras e inventar De Quincey com três tristes tigres de papel e lápis no ônibus 92 que vai da Porte de Champerret à Gare Montparnasse, numa noite de inverno há dez anos. Ninguém como De Quincey para viver um encontro que alguns dos meus pesadelos ainda levam à sua perfeição. Ele que havia sido capaz de abrir caminho na mais apavorante das noites londrinas para mostrar Williams movendo-se com pisadas de fumaça, a cara inexplicavelmente pálida, o cabelo de um assombroso amarelo-alaranjado. (...)

in A volta ao dia em 80 minutos, Julio Cortázar, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2008.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 3:

 

CORAZONADA


Apreté dos veces el timbre y enseguida supe que me iba a quedar. Heredé de mi padre, que en paz descanse, estas corazonadas. La puerta tenía un gran barrote de bronce y pensé que iba a ser bravo sacarle lustre. Después abrieron y me atendió la ex, la que se iba. Tenía cara de caballo y cofia y delantal.  "Vengo por el aviso", dije. "Ya lo sé", gruñó ella y me dejó en el zaguán, mirando las baldosas. Estudié las paredes y los zócalos, la araña de ocho bombitas y una especie de cancel. (...)

in Montevideanos, Mario Benedetti, Arca/Nueva Imagen, Montevideo, 1992.

Mario Benedetti - Poemas de Mario Benedetti

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 2:

 
DA PARCIMÔNIA:

Não digas inconsideradamente, nem o teu coração se apresse a proferir palavras diante de Deus. Porque Deus está no céu e tu sobre a terra; portanto sejam poucas as tuas palavras. os muitos cuidados produzem sonhos e no muito falar achar-se-á a loucura. Eclesiastes, 5, 1-2.

in Livro dos Sonhos, Jorge Luis Borges, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1994. 

domingo, 27 de setembro de 2015

Tempo de Estêvão:



AS FORMIGAS

Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com diversões próprias de sua idade, como qualquer outro doce anjinho de Deus no estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta.
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pôs a atirar fósforos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram daquele sadio entretenimento infantil; Tracey, porém, ficou impressionada com uma coisa que os outros não viram, ou fizeram como se não vissem, mas que a deixou paralisada e deixou nela, para sempre, um sinal na memória: frente ao fogo, frente ao perigo, as formigas separavam-se em casais e assim, de duas em duas, bem juntinhas, esperavam a morte.

In Mulheres, Eduardo Galeano, L&PM, Porto Alegre, 1997.

Galeano

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Walter Salles e o desconhecido familiar




walter salles e jia zhangke.jpg

Por puro acaso assisti ‘Um toque de pecado’ há poucos meses e fiquei muito impressionada. Mas estava longe de conhecer Jia Zhangke, a quem só descobri agora via Walter Salles; fica claro que Walter fez um ‘filme-Jia’ neste maravilhoso documentário fictício. Ou seria ficção documentada? 

 Zhang-Ke-Jia.jpg

Não importa. Importa que ganhamos um belíssimo filme sobre o amor: ao ser humano, ao cinema, à vida. Uma narrativa contemporânea por roteiro original e simples com montagem impecável. Uma delicadeza firme, inarredável.

JIA ZHANGKE, UM HOMEM DE FENYANG

Um cineasta conta a história de um cineasta contando a própria história com a ajuda de seus filmes... Precisa mais??

Jia-Zhangke-banner 
 
Primeira certeza: o cinema chinês vem para ficar. E Walter viu primeiro.
O filme presta enorme serviço não apenas a nós, brasileiros, ou a eles, chineses, mas a todos os sobreviventes das ferozes tiranias do século XX.
Delicados e irresistíveis resistentes. Viva o cinema!!

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terça-feira, 8 de setembro de 2015

Isso só, e nada mais... nunca mais.

 
E A Poe 1 

O Corvo
Edgar Alan Poe
tradução: Fernando Pessoa/ fragmento

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".
 (...)


E A Poe capa