sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 15:

train



“ ‘Diga para ele que não seria até tarde, eu falei. ‘Vocês podem comer e ir embora, não vou me ofender. Seríamos só nós três. Meu marido está viajando’.
O senhor deve estar ficando preocupado. No que eu fui me meter?, o senhor deve estar se perguntando. Como essa mulher pode fingir que se lembra perfeitamente de uma conversa tão mundana de três ou quatro décadas atrás? E quando ela vai falar do que interessa: então, falo com franqueza: quanto ao diálogo, eu estou inventando enquanto falo. O que deve ser permitido, eu suponho, uma vez que estamos falando de um escritor. O que estou contanto pode não ser ao pé da letra, mas é fiel ao espírito da coisa, isso eu garanto. Posso continuar?
Silêncio.
Eu rabisquei o número do meu telefone na caixa de brownies. ‘E vou contar meu também o meu nome’, falei, ‘no caso de você estar querendo saber. Meu nome é Julia’.
‘Julia. Como flui docemente a liquefação das roupas dela’.
‘É mesmo’, eu disse. Não fazia a menor ideia do que ele queria dizer com isso.”

In Verão, J. M. Coetzee, Companhia das Letras, SP, 2010.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 13:




“As recordações da infância consistem, creio que para todos, numa série de impressões visuais, muitas delas precisas, sem, entretanto, qualquer conexão cronológica.
Acredito ser impossível fazer um registro da própria infância. Mesmo com muita boa fé, acabaríamos por dar uma impressão falsa, muitas vezes baseada em anacronismos absurdos. Portanto, vou seguir o método de reunir as recordações por assunto, para dar uma impressão global situada no espaço e não na sucessão temporal. Vou falar dos ambientes da minha infância, das pessoas que a circundaram, dos meus sentimentos, sem querer acompanhar a priori seu desenvolvimento.
Posso prometer não dizer nada que seja falso. Mas não pretendo dizer tudo. Reservo-me o direito de mentir por omissão.
A não ser que mude de ideia.”

In Os Contos, Giuseppe Tomasi di Lampedusa, Berlendis & Vertecchia Editores, SP, 2002.

 Livro Os Contos Giuseppe Tomasi Di Lampedusa

terça-feira, 13 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 12:




O DEVORADOR DE SONHOS

Há um curioso gênero literário que surgiu independentemente em diversas épocas e noções: o roteiro do morto nas regiões ultraterrenas. O Céu e o Inferno de Swedenbor, as escrituras gnósticas, o Bardo Thödol dos tibetanos (título que, segundo Evans-Wentz, deve ser traduzido por Liberação por Audição no Plano Post-mortem) e o Livro Egípcio dos Mortos não esgotam os exemplos possíveis. As ‘simpatias e diferenças’ dos dois últimos têm merecido a atenção dos eruditos; que nos seja suficiente lembrar aqui que, para o manual tibetano, o outro mundo é tão ilusório como este, e para o egípcio é real e objetivo.
Há nos dois textos um tribunal de divindades, algumas com cabeça de macaco; nos dois, uma ponderação das virtudes e das culpas. No livro dos mortos, umas penas e um coração ocupam os pratos de balança; no Bardo Thödol, pedrinhas de cor branca e negra. Os tibetanos em demônios que atuam como verozes verdugos; os egípcios, o devorador das Sombras.
O morto jura não ter sido causa de fome ou de pranto, não ter matado e não ter mandado matar, não ter roubado os alimentos funerários, não ter falsificados as medidas, não ter tirado o leite da boca da criança, não afastado os animais do pasto, não ter capturado os pássaros dos deuses.
Se ele mentir, os quarenta e dois juízes o entregam ao Devorado ‘que é na frente, um crocodilo, no meio leão e atrás hipopótamos’. É auxiliado por outro animal, Babai, do qual só sabemos que é espantoso e que Plutarco o identificou com um titã, pai da Quimera.”

In O livro dos seres imaginários, Jorge Luis Borges, Editora Globo, Rio de janeiro, 1971.

 JORGE LUIS BORGES,

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 10:




“Durante varios años viví prácticamente solo en una estancia. El campo de ella no era de los grandes pero tenía tamaño suficiente como para que las llamadas las casas estuvieran como perdidas en un pequeño océano, como ancladas en un lugar indeterminado (o que podía ser otro) de una soledad muy  emparentada con los espartillos, las cerrilladas, la callada hostilidad de los cardos, los cañadones donde a veces se me aparecía la muerte ejemplificada (o enmascarada) en una vaca empantanada pudriéndose del cuero para adentro o, más truculentamente, en una osamenta de oveja donde los gusanos hervían en un silencio de otro mundo…. 

Cuando Jehová Dios expulsó del Paraíso a Adán y a Eva se comportó como un grosero; por lo menos, como un señorito mal educado. 

La soledad y o nunca nos hemos llevado demasiado mal, y yo vivía bastante bien. No me faltaban libros ni ganas de leerlos. Salvo cuando era necesario realizar tareas especiales, dormía casi toda la mañana y trabajaba y recorría el campo en la tarde. Y de noche leía hasta el último canto de los gallos, muchas veces hasta el escándalo guarango de los pájaros en los naranjos y los limoneros del patio y, lo peor, en la alta y copuda – y en los inviernos siempre como exasperada y hasta histérica – palmera antillana que había a pocos metros de mi puerta.

Qué sandez, por otra parte, el tal Pecado Original!”, dice Cyril Connolly en la página 19 de la edición castellana de the Unquiet Gave (La tumba sin sosiego, traduce Ricardo Baeza). (…)


In El narrador, Mario Arregui, Biblioteca de Marcha, Montevidéo, 1972.

 salvar este Desertos Fotos - bela paisagem rural da Toscana papel de parede

domingo, 11 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 9:

janelas, pavimentação, noite, portas, luzes



EL LADRON

En la noche silenciosa y oscura,
Huyendo de toda presencia humana o animal,
Evitando los ruidos, furtivamente roba
Fuego de las palabras y palabras del fuego
Para sí, para todos, para el amor que no conocerá algún día
Y la ceniza fría le castiga las manos.

In Amor que serena, termina?, Juan Gelman, Edição bilíngue, tradução e seleção Eric Nepomuceno, Record, São Paulo, 2001.

 juan_gelman