terça-feira, 13 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 12:




O DEVORADOR DE SONHOS

Há um curioso gênero literário que surgiu independentemente em diversas épocas e noções: o roteiro do morto nas regiões ultraterrenas. O Céu e o Inferno de Swedenbor, as escrituras gnósticas, o Bardo Thödol dos tibetanos (título que, segundo Evans-Wentz, deve ser traduzido por Liberação por Audição no Plano Post-mortem) e o Livro Egípcio dos Mortos não esgotam os exemplos possíveis. As ‘simpatias e diferenças’ dos dois últimos têm merecido a atenção dos eruditos; que nos seja suficiente lembrar aqui que, para o manual tibetano, o outro mundo é tão ilusório como este, e para o egípcio é real e objetivo.
Há nos dois textos um tribunal de divindades, algumas com cabeça de macaco; nos dois, uma ponderação das virtudes e das culpas. No livro dos mortos, umas penas e um coração ocupam os pratos de balança; no Bardo Thödol, pedrinhas de cor branca e negra. Os tibetanos em demônios que atuam como verozes verdugos; os egípcios, o devorador das Sombras.
O morto jura não ter sido causa de fome ou de pranto, não ter matado e não ter mandado matar, não ter roubado os alimentos funerários, não ter falsificados as medidas, não ter tirado o leite da boca da criança, não afastado os animais do pasto, não ter capturado os pássaros dos deuses.
Se ele mentir, os quarenta e dois juízes o entregam ao Devorado ‘que é na frente, um crocodilo, no meio leão e atrás hipopótamos’. É auxiliado por outro animal, Babai, do qual só sabemos que é espantoso e que Plutarco o identificou com um titã, pai da Quimera.”

In O livro dos seres imaginários, Jorge Luis Borges, Editora Globo, Rio de janeiro, 1971.

 JORGE LUIS BORGES,

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