sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TEMPO DE ESTÊVÃO 15:

train



“ ‘Diga para ele que não seria até tarde, eu falei. ‘Vocês podem comer e ir embora, não vou me ofender. Seríamos só nós três. Meu marido está viajando’.
O senhor deve estar ficando preocupado. No que eu fui me meter?, o senhor deve estar se perguntando. Como essa mulher pode fingir que se lembra perfeitamente de uma conversa tão mundana de três ou quatro décadas atrás? E quando ela vai falar do que interessa: então, falo com franqueza: quanto ao diálogo, eu estou inventando enquanto falo. O que deve ser permitido, eu suponho, uma vez que estamos falando de um escritor. O que estou contanto pode não ser ao pé da letra, mas é fiel ao espírito da coisa, isso eu garanto. Posso continuar?
Silêncio.
Eu rabisquei o número do meu telefone na caixa de brownies. ‘E vou contar meu também o meu nome’, falei, ‘no caso de você estar querendo saber. Meu nome é Julia’.
‘Julia. Como flui docemente a liquefação das roupas dela’.
‘É mesmo’, eu disse. Não fazia a menor ideia do que ele queria dizer com isso.”

In Verão, J. M. Coetzee, Companhia das Letras, SP, 2010.

Nenhum comentário:

Postar um comentário