terça-feira, 17 de maio de 2016

HILDA:




“De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas

Uma casa de seda para uns olhos duros.

Pudesse livrar-me da maior espiral

Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!

Livrar-me de todo olhar que quando espreita, sofre

O grande desconforto de ver além dos outros.

Tenho tido esse olhar.  E uma treva de dor

Perpetuamente.

Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,

De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.

Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam

Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda

Para meus olhos duros.”



In Exercícios, Hilda Hilst, Editora Globo, São Paulo, 2013.

 

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