sexta-feira, 14 de abril de 2017

DE VOLTA AOS ESTUDOS: NOVOS VELHOS TEMPOS

 
Herman Melville publicou Moby Dick no inverno de 1851. Foi um romance infinito que determinou sua glória. Página a página, o relato vai crescendo, até assumir as proporções do cosmo. A princípio, o leitor pode imaginar que o tema é a vida miserável dos pescadores de baleia; depois, que o tema é a loucura do Capitão Ahab, ansioso em perseguir e destruir a Baleia Branca; depois, que a Baleia Branca e Ahab, a perseguição que se estende pelos oceanos do planeta, são símbolos e espelhos do Universo. Para insinuar que o livro é simbólico, Melville declara que não o é, expressamente: “Que ninguém considere Moby Dick como uma história monstruosa ou, o que seria pior, uma alegoria atroz e inadmissível” (Moby Dick, XVV) A conotação habitual da palavra alegoria parece ter ofuscado os críticos; todos preferem limitar-se a uma interpretação moral da obra. Assim, E. M. Forster (Aspectos do Romance, VII) escreveu: “Limitado e reduzido nas palavras, o tema espiritual de Moby Dick é mais ou menos o seguinte: uma batalha contra o Mal prolongada excessivamente ou de um modo errôneo.” De acordo, só que o símbolo da Baleia Branca é menos propício a sugerir que o cosmo é mau do que a sugerir sua vastidão, sua inumanidade, sua estupidez irracional ou enigmática. Chesterton, em alguns de seus escritos, compara o universo dos ateus a um labirinto sem centro. Assim é o universo de Moby Dick: um cosmo (um caos) não apenas visivelmente maligno, como o que intuíram os gnósticos, mas também irracional, como o dos hexâmetros de Lucrécio.
Moby Dick está escrito num dialeto romântico do inglês, um dialeto veemente, que alterna ou conjuga processos de Shakespeare e Thomas de Quincey, de Browne e de Carlyle. Bartleby usa um idioma tranquilo e até jocoso, cuja aplicação deliberada a um tema atroz parece preconizar um Franz Kafka. Há uma afinidade secreta e central entre as duas ficções. Na primeira, a monomania de Ahab transtorna e finalmente aniquila todos os homens do navio; na segunda, o niilismo cândido de Bartleby contagia seus companheiros e também o homem estólido que relata sua história e que abona as suas tarefas imaginárias. É como se Melville houvesse escrito: “Basta que um único homem seja irracional para que os outros também o sejam e o mesmo aconteça com o universo.” A história universal está repleta de confirmações desse teor.

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Bartleby pertence ao volume intitulado The Piazza Tales (1856, Nova York e Londres). John Freeman comentou a respeito de outro conto desse livro que não pode ser compreendido em toda a sua plenitude até que Joseph Conrad publicou determinadas histórias análogas, quase meio século depois; eu diria que a obra de Kafka projeta sobre Bartleby uma curiosa luz posterior. Bartleby já define um gênero que Franz Kafka reinventaria e aprofundaria a partir de 1919: o das fantasias do comportamento e sentimento ou, como agora lamentavelmente se diz, psicológicas. Quanto ao resto, as páginas iniciais de Bartleby não prenunciam um Kafka, mas lembram ou repetem um Dickens... Em 1849, Melville havia publicado Mardi, um romance inextricável e ainda ilegível, mas cujo argumento essencial antecipa as obsessões e o mecanismo de O Castelo, O Processo e América: trata-se de uma perseguição infindável, por um mar infinito.
Referi-me às afinidades de Melville com outros escritores. Mas não o subordino aos outros. Apenas recorro a uma das leis de toda e qualquer descrição ou definição: relacionar o desconhecido com o conhecido. A grandeza de Melville é substantiva, mas sua glória é recente. Melville morreu em 1891; 20 anos depois de sua morte, a 11ª edição de Encyclopaedia Britannica considerou-o um mero cronista da vida marítima; Lang e George Saintsbury, em 1912 e 1914, ignoraram-no totalmente em suas histórias da literatura inglesa. Mas, depois, ele foi reabilitado por Lawrence da Arábia e D.H. Lawrence, Waldo Frank e Lewis Muntford. Raymond Weaver, em 1921, publicou a primeira monografia americana: Herman Melville, Mariner and Mystic (Herman Melville, Marinheiro e Místico); John Freeman, em 1926, publicou a biografia crítica Herman Melville.
A vasta população, as cidades fervilhantes, a publicidade errônea e clamorosa, tudo tem conspirado para que o grande homem secreto seja uma das tradições da América. Edgar Allan Poe foi um deles; Melville foi outro.

Jorge Luis Borges

Prólogo para edição americana de 1982 de ‘Bartleby, o escrivão’ de Herman Melville; inserido na edição brasileira de 1991, Editora Record, SP. Tradução de A.B. Pinheiro de Lemos.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Gente como a gente: necessário conhecer: FLUXUS

 

 A GENTE SE ENCONTRA NAS ESQUINAS,
PELOS BECOS,
PELOS CANTOS
DA MEMÓRIA.
PORQUE VOCÊS NÃO SABEM
DO LIXO OCIDENTAL...
ROSEIRAIS,
NOVA GRANADA DE ESPANHA...
VOU PARTIR...
DJAVANEAR...
SOU DO MUNDO,
EU SOU
MINAS GERAIS....

  


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Tamo junto....

é carnaval....

 Carnaval 2017 – Festas Pagas – Belo Horizonte
Parece-me simples. Quando o pronunciamos é porque já o entendemos. Portanto, as marchinhas foram essenciais. Maravilhosas. Críticas bem humoradas. Aprendemos  com elas. A questão é sabermos se, hoje, temos inteligência e competência para fazer a crítica tolerante de nossa ignorância.