terça-feira, 21 de maio de 2019

ESTUDANDO E TRABALHANDO:

"Começas a distinguir que tipo de mundo estamos criando? 
É exatamente o contrário das estúpidas utopias hedonísticas que os antigos reformadores imaginavam. Um mundo de medo, traição e tormentos, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina. O progresso em nosso mundo será o progresso no sentido de maior dor. As velhas civilizações proclamavam-se fundadas no amor ou na justiça. A nossa funda-se no ódio. Em nosso mundo não haverá outras emoções além de medo, fúria, truinfo e autodegradação. Destruiremos tudo mais, tudo. Já estamos liquidando os hábitos de pensamento que sobreviveram de antes da Revolução. Cortamos os laços entre filho e pai, entre homem e homem, mulher e homem. Ninguém mais ousa confiar na esposa nem nos amigos. As crianças serão tomadas das mães ao nascer, como se tiram ovos da galinha. o instinto sexual será extirpado. A procriação será uma formalidade anual como a renovação de um talão de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas estão trabalhando nisso. Não haverá lealdade, exceto lealdade ao Partido. Não haverá amor exceto amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, exceto o riso de vitória sobre o inimigo derrotado. Não haverá nem arte, nem literatura, nem ciência. Não haverá mais distinção entre a beleza e a feiura. Não haverá curiosidade, nem fruição do processo da vida. Todos os prazeres concorrentes serão destruídos. Mas sempre... não te esqueças, Winston... sempre haverá a embriaguez do poder, constantemente crescendo e constantemente se tornando mais sutil. Sempre, a todo momento, haverá o gozo da vitória , a sensação de pisar um inimigo inerme. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre. (1984, G. Orwell, 2005, pag. 255)

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sábado, 4 de maio de 2019

DIÁRIO DE UMA BRASILEIRA/04/05/2019

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"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas inúmeras pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus seus olhos.
- O que aconteceu comigo? pensou."

in A METAMORFOSE, Franz Kafka, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, SP, 1994.

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Homenagem a Beth Carvalho



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Sólo le pido a Dios
León Gieco
Sólo le pido a Dios
que el dolor no me sea indiferente,
que la reseca muerte no me encuentre
vacío y solo sin haber hecho lo suficiente.
Sólo le pido a Dios
que lo injusto no me sea indiferente,
que no me abofeteen la otra mejilla
después que una garra me arañó esta suerte.
Sólo le pido a Dios
que lo injusto no me sea indiferente,
si un traidor puede más que unos cuantos,
que esos cuantos no lo olviden fácilmente.
Sólo le pido a Dios
que la guerra no me sea indiferente,
es un monstruo grande y pisa fuerte
toda la pobre inocencia de la gente.
Sólo le pido a Dios
que

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Eu só peço a Deus
Mercedes Sosa, Beth Carvalho
Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q'eu queria
Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria
Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente
Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente
Eu só peço a Deus
Que a

terça-feira, 30 de abril de 2019

Quarto conto do livro INCONTÁVEIS, de Magda Maria Campos Pinto.



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A VIDA DE URI

Ele nasceu numa tarde chuvosa no chão do Pronto Socorro porque não havia leito vago, e tampouco houvera tempo para qualquer outra providência. A mãe, uma menina pequena de grandes olhos negros e ausentes, trazida pela polícia, chegou já em pleno trabalho de parto. Segundo o policial, ela tinha quinze anos, vivia nas ruas, fumava crack e não tinha família; não sabia quem era o próprio pai, e muito menos o do bebê. Aliás, a menina era toda distância e nada dizia, apenas balbuciava incoerências enquanto o filho escorregava por entre suas pernas no caótico corredor do Pronto Socorro.
Nasceu esgotado e trêmulo, mas sossegado; e não chorou. Abriu negros olhos brilhantes e aconchegou-se nos braços da enfermeira que o recolheu no chão. Parecia um anjinho cansado e mudo que, por alguns minutos, comoveu e calou a babel do corredor do hospital. Logo depois, ele foi levado pela assistente social, uma mulher jovem, apressada e aflita. Da menina mãe, pálida criança, não se teve mais notícias. Dizem que desapareceu pouco depois. Contam também que em seus murmúrios incongruentes suspirava cantigas de roda enquanto o bebê escapulia entre sangue e água no chão frio e imundo.
Ester e Tiago eram muito conhecidos e amados pela comunidade.  Casal de cidadãos conscientes, preocupados com os graves problemas sociais, eles prestavam serviços voluntários no hospital. Não tinham filhos, não por falta de desejo e empenho. Essa frustração era a única nuvem na felicidade do casal.

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Naquela tarde, Ester se deparou com a assistente social perambulando aflita com o bebezinho enrolado nos braços, que, ao vê-la, se iluminou e teve certeza da existência de Deus.
- ‘’Ester, Ester, seu filho, seu filho chegou, suas preces foram ouvidas... ’
Ester ficou sem palavras e acompanhou a jovem com uma sensação de tempo suspenso, de despreparo e de humildade. Viu-se diante do diretor do hospital assinando papeis sem ler e recebendo nos braços um bebê quieto, com grandes olhos acesos, profundos, molhados, indizíveis, infinitos.
Do infinito, Ester ouviu ‘mamãe’ e, andando nas nuvens, voltou para casa. Chorava de pura alegria enquanto lavava, vestia e alimentava o inesperado filho angélico. Pouco depois, Tiago, também em prantos, ninava o anjo e repetia: ‘filhinho, filhinho’.
Chegou tão de repente, tão a seu modo, que nem sabiam como chamá-lo. Ao longo de anos, eles tinham feito listas e mais listas de nomes para um desejado filho, mas agora nenhum deles combinava com repentina dádiva divina. Tal pensamento – presente de Deus - despertou Ester que, grávida de lembranças imemoriais, decidiu chamá-lo Uri. Justificava-se dizendo que ‘Uri’ quer dizer ‘minha luz’ em seu já longínquo hebraico, e que assim reencontrava os antepassados e seu próprio deus de impronunciável nome. Tão convencida estava da vontade divina presente naquela criança que Tiago só pode aprovar e aplaudir.
E Uri tornou-se o sol de suas vidas.
Ao completar um ano, ele já caminhava firme, sorria de modo irresistível e encantava a todos. Uri não adoecia, pelo contrario, crescia forte, rápido, cheio de curiosidade e inteligência. Era um pouco tímido, um tanto reservado, às vezes até mesmo arredio, mas sempre encantador. Falava pouco e gostava de ouvir. Sorria francamente. E a vida fluía generosa para a família abençoada por Deus.
Os quinze anos de Uri foram comemorados com uma viagem ao redor do mundo que durou um ano inteiro. Ester e Tiago gostavam de história e de arqueologia. Mergulharam, então, nos mais longínquos rincões e encontraram muitas gentes. E por onde passavam Uri brilhava e espalhava alegria.
Quando voltaram de viagem, Uri foi para o colégio novo. Estava ainda mais adorável numa exuberante adolescência. Era tranquilo, sereno e inocente.
Um dia, ao chegar do colégio, encontrou Ester sentindo dores no estômago. Acompanhou-a ao médico. Ela tinha cinquenta anos e estava com câncer. Seguiram-se cinco anos de hospitais, cirurgias, quimioterapias, dores e morfinas.
Mãe ficou murcha, mirrada e fosca; o filho era ternura e boa vontade. Uri tornou-se homem feito do dia para noite sem perder o encanto. De grandes olhos molhados, caminhava sondando o chão com o peito empurrado para dentro. Homem de poucas palavras, na verdade, monossilábico, mas cheio ideias indizíveis que transbordavam dos olhos úmidos. Todos os sentimentos se encontravam nos olhos de Uri, e todos os seus gestos eram de dedicação e ternura.
Tiago, por outro lado, tornou-se triste e apático. Uma melancolia só.
Mãe morreu nos braços de Uri que, chorando lágrimas em cascata, acariciava-lhe a cabeça nua e pálida silenciosamente. Beijava-lhe a testa repetidas vezes.
Cuidou dos funerais e apoiou Tiago no caminho de volta do cemitério. Passou a preparar o café da manhã e a cuidar do pai, agora acabrunhado e sem rumo. Uri cursava história e estudava com prazer. À noite, voltava para casa, fazia o jantar, servia o pai, lavava a louça e se sentava para conversarem. Falavam de tudo; histórias do mundo, dos povos, da vida. Uri falava devagar e baixo, e quando sorria era em silêncio. Não mudava nunca, sempre os mesmos grandes olhos negros cheios de infinitos.
Estava na faculdade quando se lembrou de que era dia de seu aniversário de vinte e um anos. Decidiu voltar mais cedo e comemorar com pai. Comprou vinho, uma bela massa e um presente para Tiago: um livro de história. Uri estava feliz por presentear o pai no dia em que completava vinte e um anos.
Encontrou-o sentado na poltrona de sempre, aparentemente cochilando, cheio de serenidade. Mas Tiago estava morto. Infarto fulminante.
Uri chorou sem murmúrios, guardou o livro, o vinho, a massa e, uma vez mais, cuidou dos funerais com piedosa dedicação. Recebeu sozinho e educadamente os cumprimentos da comunidade inteira, que muito o admirava e que, agora, se encontrava perplexa, compadecida com o destino daquele anjo. 
Era fim de tarde, crepúsculo frio, quando Uri encontrou-se sozinho em casa. Trancou a porta e sentou-se na poltrona de Tiago. Olhou o redor com vagar, observando e reconhecendo cada canto, cada objeto, cada delicadeza. Não sabia o que fazer e nenhum pensamento se lhe formava. Continuou sentado, imóvel, distante, mergulhado em infinitos.
Era noite escura e alta quando no vazio do pensamento, impensadas palavras começaram a brotar no vazio negro da mente de Uri, como um fiozinho de água escoando de mansinho sob uma porta fechada e inundando tudo.
- ‘O cravo brigou com a rosa’.
- ‘O cravo brigou com a rosa’.
- ‘Debaixo de uma sacada’.
- ‘Debaixo de uma sacada’.
Um pequeno ruído na fechadura da porta da casa não o despertou.
- ‘O cravo saiu ferido’.
- ‘O cravo saiu ferido’.
Novo ruído muito mais forte na fechadura da sala.
- ‘A rosa despedaçada ’
- ‘A rosa despedaçada ’.
A porta da casa se abriu num repente e três homens armados surgiram diante de Uri, que lhes abriu seu mesmo e único sorriso. Tentou levantar-se, mas foi brutalmente jogado de volta contra a poltrona. Um homem apontava um revólver e berrava:
- ‘Quieto, quieto, ou morre!’
Uri não compreendia; manteve-se sentado, quieto, de olhos bem abertos, enquanto o homem tremia e gritava com os outros dois:
- ‘Rápido, rápido... ’.
Dois homens corriam pela casa derrubando coisas, chutando portas, abrindo gavetas e recolhendo objetos em sacos de plástico.
 O primeiro continuava trêmulo mirando a cabeça de Uri, que o observava sem compreender. Os olhos de Uri estavam voltados para dentro; palavras continuavam crescendo dentro dele. E, de repente, ele murmurou:
- ‘O cravo ficou doente’.
- ‘O cravo ficou doente’.
O homem armado arregalou os olhos e berrou “calado!”. Uri não se moveu e o homem gargalhou:
- ‘É imbecil, oh, o babaca, idiota, oh, ó, o cara... ’.
Baixou o revólver balançando a cabeça.
Uri continuava tranquilo, sentado, quieto, balbuciando:
- ‘A rosa foi visitar’.
- ‘A rosa foi visitar’.
Os homens, esquecidos de Uri, andaram livres pela casa. Passavam de um cômodo para outro pegando o que lhes apetecia.  Chegaram à cozinha e esvaziaram a geladeira. Ligaram o fogão e comeram deliciosa massa. Na copa, beberam vinho e depois, na sala, jogaram-se sobre o sofá. O vinho aqueceu. Buscaram mais e encontraram uísque. A excitação crescia e eles começaram a brincar. Entre gargalhadas e piadas, defecaram e urinaram ali mesmo, sobre os sofás e tapetes.
A euforia e o frenesi tomaram conta. Revisitaram a casa quebrando coisas, destruindo as plantas, emporcalhando as paredes. De volta à sala, encontraram Uri quieto, distante, ainda murmurando:
- ‘O cravo teve um desmaio’.
- ‘O cravo teve um desmaio’.
Gargalharam. Desnudaram-no, o espancaram e estupraram. Já cansados, acertaram-lhe três tiros. Cada homem, um disparo.
Saíram da casa manhã chegando. O dia estava suave e fresco. Levaram o carro de Uri.
Três dias depois os vizinhos chamaram a polícia. Alguma coisa não cheirava bem, ali nas redondezas.
E o anjo havia desaparecido.

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sábado, 13 de abril de 2019

NÓS ESTAMOS DE LUTO.

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Passo para dizer que estamos ausentes aqui, por ora, porque estamos trabalhando em outros territórios. Estamos de luto, mas estamos trabalhando muito... NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Vladimir, Wim e Bruno. Existe vida inteligente.


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A MORTE DE UM ATOR
VLADIMIR SAFATLE
Pode-se dizer que foi o momento mais maduro de uma carreira que trazia atrás de si uma sequência de filmes marcantes. Desde o início dos anos 1970, Wim Wenders parecia imbuído da tentativa de se servir da linguagem de gênero, em especial do road movie e dos filmes noir, para falar de pessoas deslocadas de seus lugares naturais, tocadas por encontros improváveis e aparentemente impossíveis.
No que ele recuperava o antipsicologismo, ou seja, a compreensão de que uma vida não era o desdobramento de uma personalidade psicológica em desenvolvimento e progressão, de uma de suas maiores influências: Michelangelo Antonioni.
Sua capacidade de reviver como alemão (o que, neste caso, só podia significar como um estrangeiro) os fundamentos da linguagem cinematográfica americana parecia caminhar em um crescendo.
Então veio "Paris, Texas", com seu deserto, suas vidas desertificadas, seu blues traumatizado na guitarra de Ry Cooder. O filme e sua história, sobre um marido e pai que enlouquecera de ciúme, incendiando a própria casa e desaparecendo no deserto, para depois retornar, a fim de procurar aproximar o que ainda poderia ser aproximado e novamente desaparecer.
Depois disso, veio "Asas do Desejo" como a figuração de um encontro que o filme anterior não permitira. Encontro em uma Berlim dividida sobrevoada por dois anjos passivos, que apenas observavam o correr das vidas humanas, mas sem poder fazer muita coisa, com um olhar que misturava complacência e indiferença.
Um desses anjos era Bruno Ganz, o ator que morreu na semana passada. Desde "O Amigo Americano", todos sabiam que se tratava de um grande ator, mas agora havia algo de deslumbrante.
A história de um anjo que se apaixona por uma trapezista, que se humaniza e larga a imortalidade para poder sentir o calor de uma xícara de café, o frio do vento e trabalhar em um circo estava no limite do melodrama e facilmente poderia redundar em fracasso.
Mas todos que viram o filme sabem da força de seu magnetismo e muito disso se deve a Bruno Ganz. Seu olhar surpreso e infantil, seus gestos lentos, como quem descobre uma terra completamente desconhecida e testa a sua segurança, com sua fala de quem está a recitar um poema mesmo quando descreve as cenas banais a que assistira no dia, tudo isso foi marcante para toda uma geração que cresceu nos anos 1990.
O teatro e o cinema guardaram um sentido de "expressão" que se modificou no interior de outras artes após o romantismo. Se, para a música ou para a literatura, expressão significará exteriorização da singularidade de quem serve de suporte à produção das obras, o teatro e o cinema admitirão "expressão" como conformação a um papel, como o desaparecer no interior de um outro.
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Uma das maiores ironias do cinema contemporâneo é ver aquele que mais bem soube expressar um anjo aparecer uma década depois como a mais crível representação de Hitler que se tem notícia.
Quando "A Queda" apareceu, não foram poucos os que criticaram Ganz por ter criado um Hitler "demasiado humano". Sua mistura de explosões impotentes de raiva, de certa empatia por algumas figuras, seu ar cansado e rígido: tudo isso retirava Hitler das caricaturas psicológicas e lhe colocava ao alcance da mão, como se ele pudesse ter aparecido em qualquer lugar.
Sua loucura advinha próxima, e o que os críticos de Ganz não entenderam era como essa era a mais aterradora representação da catástrofe. Descobrir que alguém como Hitler, o responsável pela destruição enfurecida de tudo à sua volta, pelo assassinato industrial de milhões, não estava assim tão longe de nós. A força da reflexão sobre a catástrofe é mais presente quando lembramos como o que é monstruoso pode ter nossos traços.
Assim, caminhando do céu ao inferno, Bruno Ganz mostrou o que pode um ator. Quanta vida é capaz de criar aquele que empresta o seu corpo a uma ideia.
Vladimir Safatle
Professor de filosofia da USP, autor de “O Circuito dos Afetos: Corpos Políticos, Desamparo e o Fim do Indivíduo”.

FSP 1.03.2019
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A PRIMEIRA VEZ

(TERCEIRO CONTO DO LIVRO 'INCONTÁVEIS')


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A PRIMEIRA VEZ


Ele bate a coronha da arma na minha cabeça e fico momentaneamente cego, mas, dessa vez, não perco a consciência. O mundo agora é um pano negro, negríssimo, rendilhado de estrelinhas como o céu de Diamantina em noite sem lua. Luzes piscando longe, muito longe.
Meu corpo também pisca, pisca distante de mim; milhares de gotas-espinhos escorrem de mim, penetram em mim, não sei, lágrimas evaporam do meu corpo inteiro, rios de suor e sangue me afogam, escorrem, cada gota uma dor e eu, eu me lembrando, Diamantina, Diamantina, nós dois felizes sob um céu estrelado...
Agora, aqui, sou o homem mau, muito mau e não me rendo. E a morte se anunciando, girando, rodando, me rondando... A morte.
Eu penso. Relação de palavras: deserto, decerto, incerto, discreto, decreto, correto, reto, teto, quieto! Inútil, vão, infinitamente vão. Tudo sem fim. Vida sem fim.
Não posso parar de pensar.
Lina, Lina, meu amor, Lina. Lina queria que eu saísse do exército. Insistiu. Teimou. Eu não quis. Eu gostava da corporação, eu queria ser general. Eu era honrado. Sou. Sou um homem honrado.
Lina debochava de mim.
Um terremoto inflama a massa sem forma que hoje sou eu. Rebelião em minhas entranhas ferventes. Minhas vísceras querem explodir.
Vomito.
O mau cheiro. Meu. Descobri que sou um mau cheiro. Há quanto tempo? Dias, semanas, horas infinitas. De vômito, urina, merda e sangue. Eu.
Continuo pensando: torturado. Um prisioneiro torturado. Eu.
Relembro amigos. Vivíamos juntos, bem unidos. De repente, subitamente, estou rodeado de inimigos. Há uma guerra de não sei de quem, não sei onde, nem sei por quê. Ninguém sabe ao certo. Há uma guerra, e isso é tudo.
Devo manter-me atento. Acordado, pensando e alerta.
Segui meu capitão. Só isso. Não sei o que aconteceu com o meu capitão. O nosso regimento foi surpreendido. Houve mortes. Não sei quantas, nem quantos foram capturados. Não sei nada.
Tenho de vigiar.
Entre os pontos de brilho nesse buraco sombrio, revejo o amor de Lina e me debruço sobre o corpo macio. Sinto o cálido perfume da mulher. Não posso esquecer-me: Lina, Lina, Lina.
Abrem a porta e os homens encapuzados voltam. Sempre os mesmos: grandes, fortes, calados. Não falam. O treinamento, eu sei. Bem sei. O trabalho de tortura é feito em silêncio; só o outro, o homem calmo e limpo, sem capuz, sempre tranquilo, fala. Interroga! Firme, ele me encara, olhos nos olhos, às vezes, ele até sorri. Simples estratégia de convencimento. Um burocrata, alguém da Inteligência. Conheço direitinho o protocolo.
Mas, dessa vez, os encapuzados estão sozinhos. ‘Desprezíveis’, penso, “infames”, penso. Idiota esse meu pensamento. Desprezível sou eu. Sou um amontoado de merda pensante.
Chutam rins, costelas, socam a cara, quebram o nariz. Mais vômito e eu, o intratável, o fedorento, o asqueroso, continua pensando: ‘sórdidos!’. O ilustrado sonhador honrado pensa e apanha. Pensa. E apanha.
Eu sou o bandido, o patife, o cruel. Fico muito mais forte pensando assim, recomendava o treinamento. Para aguentar, para não quebrar.
Eles param de me bater e vão embora sem dizer palavra.
Foi só aquecimento, talvez estejam entediados, não podem abrir a boca, só podem me vigiar; tomar conta de um saco de merda.  Obrigados a apavorar um monte de bosta.
Não. Não. Não. Preciso manter-me firme. Sou forte. Vou reagir. Eles devem ter medo de mim. Sou o inquebrável.
Quero chorar, claro que eu tenho medo, horror, terror, pânico, mas não abro a boca. Que tenham mais medo que eu! É assim. Deve ser assim.
Quero rir. Isso, eu não devo.
Rastejamentos na lama, afogamentos, corridas sem fim, fome, frio, as flexões. A-s-fle-x-ssõ-es! Aurora, crepúsculo. Meio-dia, meia-noite. Meio dia, meia noite, noite e meia, dia e meio. O tempo todo. No exército é assim.
Aqui não estou no exército. Não estou, mas não percebo a diferença. Devo ser idiota. Não, não, não. Não devo pensar assim.
Eu queria ser irônico, o mais irônico, eu queria ser como Lina. Lina é impiedosa. Desalmada. Lembrança boa. Não posso me esquecer.
Passos, correntes, chaves, porta aberta. Estremeço, arrepio, suo. Fico imóvel. Imóvel? Quase rio: estou amarrado.
Vejo o homem da Inteligência. Elegante e tranquilo; como sempre. Perfumado, calmo, dá dois passos para um lado, dois passos para o outro. Sem pressa. Cercado por quatro encapuzados. Segurança do homem da Inteligência. Quatro seguranças.
- Nomes, nomes e codinomes. E você fica livre. Dou minha palavra, acaba tudo e você volta para casa.
Voz tranquila, bem pausada, quase doce. Firmeza sem arrogância. Ele sabe o que faz, foi bem preparado, assim como eu.
- No-mes!
Gemo. Um descontrolado me acerta o nariz quebrado. Mais sangue. Desmorono sobre o monte de merda. De vômito. De nada.
Pancadas eu aguento bem, meu medo é outro.
O homem da Inteligência fica bondoso. Manda que me levantem, oferece uma cadeira, um copo d’água, limpam o sangue da minha cara.
Eu o vejo melhor. Jovem, bonito, expressão amigável, quase piedosa: que eu pense que ele pode me salvar; que eu pense que ele quer me salvar, que isso o desagrada profundamente.
Pede que eu o olhe na cara, mas mantenho a cabeça baixa; ele insiste uma vez, mas não me movo.
Vai piorar. Uma onda de pânico gelado começa na sola dos meus pés e sobe. Vai piorar. Meus olhos procuram os alicates.
Erro fatal. Eles veem.
Um simples olhar do homem calmo e um mascarado apanha o alicate. Outros dois me seguram. Grito, choro, berro, suplico, esperneio. Ele prende a minha mão, eu gemo, ele arranca a unha, a ponta do dedo, outra unha, mais sangue, esguichos, jorros, gemidos, eu grito, eu choro, eu desespero.
- João, João, João... João Queiróz, o Caqui.
O homem tranquilo sorri discretamente e solta:
- Ahh!
Um silêncio.
Gemo. As unhas. Minhas unhas.
- Onde está o Caqui?
- Não sei.
Choramingo. Não sei mesmo. Nem ideia. João Caqui é ninguém, como eu. João é meu camarada. Vivíamos juntos e nos apoiávamos, dividíamos o pão nos dias a pão sem água. Dividíamos a água nos dias de água sem pão. O que terá acontecido com ele?
- Fale sobre o João...
Nada a dizer.
Outro movimento de olhos da Inteligência: hora dos afogamentos.
Eu aguento; têm cuidado, pois eu posso afogar-me de propósito e não querem que eu morra.
Não quero me afogar, eu não quero morrer.
Retiram-me da água e me jogam no chão. Escarram em mim.
Vão embora.
E, então, uma calda amarga começa a afogar-me. Tudo fica apertado, muito apertado, como se me dobrassem como um papel usado. O monumento de bronze – um dia, imaginei-me bronze – torna-se uma folha de papelão. E eu ainda penso, quero ironizar: ‘talvez eu vá para a reciclagem’. Teimosa tentativa em minha agonia: não aprendi a ser irônico. Rilke era irônico; Lina quem disse.
 Você nunca foi bronze’, ela sussurra pertinho de mim, ri o riso que diz ‘te amo’, ouço um berro: ‘palhaço, idiota, burro’. Lina é dura, impassível, implacável, um doce! Meu Deus, Lina, meu amor, meu amor! Deus? Lina não gosta que eu fale em Deus, consegue não falar em Deus. Lina não é deste mundo. Estou morrendo, Lina, morrendo! Ficando louco. Zonzo, sozinho, tonto, tombo, foi o tombo do navio, marinheiro só, ou foi o balanço do mar, marinheiro só, quem te ensinou a nadar, Lina, Lina, mas eu não sou daqui, marinheiro só, quem te ensinou a nadar, quem te ensinou a nadar... Lina, eu te amo.
Acordo. Gemo. Não me querem morto. Não querem. Eu não quero morrer. Choro. Estou sozinho. Tudo é absurdo. Uma zombaria.  O ingênuo pensante sobrevive; ex bem pensante, atual traidor, hipócrita, ninguém. Eu. Eu. Eu devia morrer.
Lina censura.
- ‘Asno, pare com isso, imbecil, não pense’.
Lina me consola. Não sei. Enlouqueci. É possível.  Preciso do amor de Lina. Do corpo de Lina. Preciso das boas lembranças. De memórias felizes.
Parei de sentir, estou calmo e não sinto dor. Pareço uma... Não sei. Mas é uma. Uma palavra, muitas palavras.
Ficou tudo claro. Sou um punhado de palavras. Elas estão escorrendo, as palavras escoam. Eu as vejo. Vejo a palavra rio, rio, rio, sapo cururu na beira do rio, quando sapo grita, ó maninha, diz que está com frio...
As palavras estão dançando. Não vejo Lina.
O mundo está apagando calmamente, a mente, alma, crente, ente, quente...  Águas mornas, palavras nadam, são amarelas, folhas secas molhadas pelo sereno mentiroso da madrugada. Eu sou também isso.
Lina gargalha, faz piada chula, fico envergonhado. Lina debochada, imoral, bandida, eu gosto, é de verdade, é assim que se diz ‘é de verdade’. Nada sei da verdade, sou um prisioneiro, fuzileiro, cativeiro... Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zague...
Lina? Eu quero morrer.
O torturado é um sujeito irritante, obcecado, obstinado, cabeção, durão... Capelinha de melão, é de São João, é de cravo, é de rosa, é de manjericão... Doces memórias para não quebrar.
Quebrei.
Entreguei o João Caqui. Meu amigo que ficava todo vermelho. João ficava vermelho, vermelhinho. Era engraçado.
Conseguiram me quebrar.
Sou uma enorme falta de espaço, uma asfixia e um punhado de pensamentos estúpidos. Estou morrendo. Vou morrer agora. Quero morrer. Preciso morrer imediatamente.
A dor é um movimento silente. Essa minha apatia é aparente. Eu rimo. Nos extremos, em todos os extremos, estão as rimas. Lina disse. Eu lembro: Lina poeta, profeta, abjeta. Lina linda. Nos extremos, as rimas. Nascer é morrer. Dizia Lina. Não vejo o rosto de Lina. Não me lembro de Lina.
As palavras vão embora. O esforço acaba quando se morre, o ser é um esforço infinito de perseverança em seu ser, diz Spinosa, a rosa, arrasa o meu projeto de vida, querida, estrela do meu caminho...
Existe ar puro e cor violeta. Existe luz. Sem chamas, luminosidade suave, constante, parece jorro d’água, mansa e perene. Mas é luz. E é quente. Parece o amor que eu sinto. É o luar quente das caminhadas noturnas com Lina nas folgas do exército. Lina gostava da lua. Gostava? Não me lembro. Porque Lina é boa comigo?
Acordo.
Vivo e lúcido. Cuidaram de mim. Um colchão limpo. Estou vestido, as mãos enfaixadas, um cobertor. Não sinto dor. O quarto está aquecido. Há uma pequena lâmpada acesa. Tudo quieto, sossegado.
Não sei o que aconteceu.
Não sinto fome nem frio. Estou quase contente. Lina não gosta de vento. Está tudo bem. Vou viver. Quero continuar vivo.
O tempo não passa. Nada acontece. Está tudo bem.
A porta range. Voltaram. Meu coração ainda galopa. Estou bem vivo.
- “Não encontramos nenhum João”, diz pausadamente o mesmo homem bem educado.
Sinto uma esperança, tomara o João tenha morrido, penso. Uma indecência, eu sei, mas penso e desejo profundamente. Uma expectativa de fim. Tomara o João tenha morrido. Não tenha sofrido. Em mim, a velha teimosia. Tomara, tomara, eu rezo.
- Fale sobre o João...
Ele não perde a paciência e eu não tenho o que dizer. Estou calmo. Que o João descanse em paz!
Choques elétricos doem muito, estupros também, muito, muitos, gritos, ritos, mitos, espíritos, críticos, não, não, quero morrer, não cai não, não cai não, cai aqui, caqui, caqui... João, João balalão, senhor capitão, espada na cinta...
E a chama de um isqueiro adentra minhas pupilas. É o céu de Diamantina.
Acordo pendurado pelos braços e pernas. Nu. Sou um saco de treinamento de boxe para recrutas.
Não dói, ainda penso. Pensar é pura agonia, é doença. Preciso morrer. É uma doença.
 Sei como é. Socávamos colegas no treinamento. É difícil socar colegas. Só quero morrer. Não aprendi a morrer.
Cansaram.
Soltam-me e me jogam num canto frio, queda, chão, deu uma queda, foi ao chão, Terezinha de Jesus deu uma queda... como fiapo de algodão voando numa brisa adocicada, acudiram três cavalheiros, minha felicidade brilha pontilhada dentro da flecha de sol que entra pelo pequeno furo na janela bem fechada, fenda na cegueira de meus olhos queimados, queimaram os meus olhos, olhos queimados, nem doeu tanto assim, não doeu tanto assim, Terezinha de Jesus, o segundo seu irmão, que Teresa deu a mão...
Lina, Lina. Estou morto. Não consigo morrer.
Quero brincar com os cabelos de Lina, ela amolece, conversamos sobre a estupidez das penas de morte. Lina corrige: estupidez das penas, não da morte. Amolecer. E fuder. Acho que vou adormecer.
Não deixam. O mesmo som abafado chocando contra o meu crânio. Ainda há sangue que desliza morno, sinto, é morno, escorre sobre os meus olhos cegos e há uma corrente elétrica. Dor em tiras, como tiros, disparos, metralhadora no corpo inteiro e tudo desaparece outra vez numa avalanche de lama. Desapareço na lama. Barro escuro.
E não morro. E não morro. A tortura é uma dor comprida que é só comprida. Dura. Perdura. Não muda. Dor por dor.
Acordo. Cama macia e quente. Silêncio e um cheiro de comida boa. Um cobertor leve. Enlouqueci, só pode. Fico apavorado. Um dia, Lina disse que ela já estava morta havia tempo. Lina nunca diria uma coisa dessas. Estou morto? Ou melhor, diria, diria sim. Lina é meu amor. Ri safada, me lambe, gargalha, segura o meu pau, calma, vejo olhos molhados, bandida, me chupa, me chama, geme e eu...
Que olhos? Lina! Que olhos? Eu não me lembro.
O tempo. O tempo. Há sossego e paz. Paz, paz, pai, papai, papa, pa, az, az, z, z.... Eu não consigo morrer.
- Como vamos aqui? Estão te tratando bem?
A voz. A voz. O João. O João? Não. O João não.
- Tem medo de alicate, né?
O João. A voz. O Caqui. João, João... A risada do João. Joãobalalão, o senhor capitão, o pião, o pião entrou na roda, roda pião, bambeia pião, roda pião, bambeia pião... o pião... o pi...


Magda Maria Campos Pinto - quasesertao@gmail.com
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