segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

QUER VER? ESCUTA.

(segundo conto do livro Incontáveis)
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QUER VER? ESCUTA.

Eu disse que queria calar-me para sempre. Foi o caos. Descarados, os dois gargalharam ao mesmo tempo e começaram a dizer coisas completamente incompreensíveis, falando uma língua inexistente, ou melhor, uma língua que eu não compreendia.
Para bem da verdade, pode ser que aquela língua existisse e eu simplesmente a desconhecesse; eles falavam com fluência, cientes da minha incompreensão, rindo de mim num tranquilo deboche. Era o cúmulo do abuso.
Mas talvez não, talvez não fosse assim, provavelmente era o meu íntimo debate feroz, minha irritante e permanente angústia, enquanto eles brincavam como crianças felizes e inocentes. Tagarelantes. Talvez fosse minha alma macia querendo mostrar-se e eu ainda querendo esconder-me. Provavelmente.
Você tem alma de palhaço, de andarilho, de atriz... Precisa arrumar um circo, eu ouvi, naquele mesmo instante, eu ouvi meu pai falando ao meu ouvido, quase um sussurro, dissimulando o inusitado conselho, gaguejando como quem trai um segredo ou, humildemente, confessa um pecado. E meu pai nunca foi homem de gagueiras, pelo contrário, era um grande narrador. Mas aquele conselho – ‘você tem alma de palhaço... ’ – eu bem me lembro, ele soprou aos tropeços.
E ouvi também, quando depois, muitos anos depois, sabendo que estava para morrer, preocupado não com a sua, mas com a minha morte, ou melhor, com a vida que se deveria viver sem ele, perguntou como eu iria manter minha ingenuidade pura – a que tínhamos ambos e de que tanto gostávamos e sustentávamos com discreto orgulho. Perguntou como eu guardaria o gosto de inventar modas, modas do mundo da lua, dizia ele; e me advertia de que o mundo não gosta de ingenuidades nem de luas; que, neste mundo, é perigoso disparate ter alma branda e, mais ainda, preocupava-se com a minha vida fora da vida, pois sabia que eu vivia também outra vida, outras, vida ávida do realmente importante e então...
E, assim, tudo ao contrário, naqueles dias em que ele estava para morrer, começou a passar-me orientações, consolo, estímulo, eu resistindo, tentando fazer com que ele se calasse: ‘sou eu que quero ajudar, sou eu quem tem de te consolar’.
E ele: ‘escuta, presta atenção, você precisa do palhaço, não tem jeito, você não pode ficar sozinha, escuta, procura o palhaço... ’.
 Eu, triste, perdida, pensando na ausência dele, tentando convencer-me de que tudo aquilo era delírio, palavra louca de quem já perdeu a razão, mas sem conseguir convencer-me nem por um segundo e, agora, estou aqui ouvindo meu pai murmurando: ‘procure sua gente, não desista, aqui você é pessoa estranha, você precisa do seu teatro’, ouço meu pai insistindo, sem poder declarar-se francamente, em alto e bom som, enquanto esses dois gozam da minha cara, às palhaçadas, e eu pensando que esses dois são crianças, minhas crianças, meu teatro, minhas modas, minhas invenções, e agora não...
Agora os dois estão calados, sérios, olhando-me pelo canto dos olhos através do espelho, e eu, eu entro na brincadeira, sorrio o sorriso velhaco que só meu pai sabia sorrir e reajo. Invento uma ira incontrolável e berro:
- Vão ou não vão me explicar essa falação estrambótica?
- Não.
Eu rio, começo a falar, olho para dentro e a lembrança não dói. Pelo contrário, lembro-me da primeira luz da manhã que lutava para atravessar os vidros da janela diante da cama em que estava presa havia semanas. Os vidros eram irregulares e, com eles, o sol nascente tecia tramas incríveis. Eu podia perceber os raios que conseguiam penetrar primeiro. Depois, vinham os segundos que, lutando com espessura da vidraça, penetravam mais fininhos e mudavam a cor do quarto; e, então, aos poucos, as cores entravam uma por uma, de mansinho, até que todos os raios, vencendo completamente os vidros da janela, explodissem o quarto em cores inimagináveis. Eu comemorava a vitória do sol e recebia no meu leito de hospital uma multidão de seres luminosos, sem corpo, que contavam histórias de universos distantes, de outras gentes e insuspeitados destinos.
Trazidas pela luz do sol, vidas extraordinárias visitavam-me. Certo dia chegou um rapazinho louro de ombros largos e pernas de aço, redondas como as rodas de uma bicicleta. Ele me carregou para o universo dele, onde todos tinham pernas redondas e viviam girando, girando, girando. Lá o sol era azul e diversas luas mudavam, a cada dia, a cor da noite.
Ouvi a música dos dias chuvosos quando a água, fustigando a janela, trazia-me outros universos; agora, os musicais infinitos. Ouvi todas as melodias que a chuva sabe compor quando encontra os vidros de uma janela; as raivosas ou simplesmente fortes, as melancólicas e as românticas, e ouvi também as eternas sinfonias que duravam uma noite inteira.
Lembrei-me ainda dos pequenos poetas que cantavam sempre, seres pequeninos, mínimos, quase invisíveis, que eu entrevia entre as folhas da árvore que se cercava da janela; os poetas chegavam no fim da tarde para esperarem comigo pelo meu pai.
E, então, revi os pequenos olhos do meu pai que, todo dia, final da tarde, chegava cansado sem querer mostrar cansaço; trazia sucos muito doces que eu não queria, não gostava e recusava terminantemente enquanto ele pedia perdão com aqueles irrequietos olhos negros. Eu não sabia por que ele pedia perdão, mas não perdoava.
E ele pediu perdão todos os dias, sem descanso nem desânimo, até que eu me sentisse poderosa e rainha, escrava somente da vida, convencida de que o amor dele era muito maior do que a minha dor, e de que ele era mais forte do que todos os gigantes de branco que vinham me espetar várias vezes ao dia.
E, então, quando eu voltei a me mostrar pessoa altiva e decente, respeitosa de si – dizia ele, ele voltou a sorrir das muitas maneiras que sabia, principalmente com os olhos, e começamos a conversar longamente, sempre com poucas palavras.
Ele pedia perdão porque eu estava sofrendo e ele não podia fazer nada; porque eu ainda não compreendia que eu era a dor de outra vida e o culpava; eu era a minha vida e ele não podia mudar isso. Ele se sentia culpado diante de uma vida, a minha, que ainda acreditava – e queria continuar acreditando – no poder dele, poder que ele sabia nenhum diante do mistério, mistério da vida que ele amava tanto e que o submetia fazendo-me sofrer.
Mas tudo isso ele só me contou depois, muito tempo depois, quando eu já havia me reerguido, dominado a dor e aprendido a comportar-me com a dignidade e a coragem que uma boa vida pede. Dizia ele.
Certa tarde, ele contou – falava com autoridade, algumas palavras apenas, falava como se estivesse dizendo outra coisa; a história, a essência propriamente dita, ele só contava com os olhos, ou seja, a gente tinha que encontrar as palavras nos olhos dele – mas, dizia eu, certa tarde ele contou que mulheres conversam com todos os seres do universo, inclusive com os que não existem, pois são as mulheres que criam o que não existe.
Aos homens, cabe esperar. Eles nem sabem querer o que não existe, só as mulheres são capazes desse absurdo; só as mulheres querem e inventam as coisas inexistentes. Dizia-me o meu pai, que as verdades são as mais lindas invenções das mulheres.
Durante aqueles meses eternos, todo dia, toda tarde, depois do trabalho, ele chegava com o suco melado e mais um pedaço da história dos homens. Se eu aceitasse o suco, ele continuava a história.
Aos homens, restava acreditar no que as mulheres inventam; às vezes, é difícil acreditar nas invenções femininas, ele me repetia com um permanente e enigmático sorriso.
E bem humorado e, ao mesmo tempo, um tanto debochado, emendava: ‘para mulheres, uma coisa pode ser muitas coisas. Multiplicação impossível para homens... ’
Fiquei tão impressionada com a sabedoria do meu pai que, mesmo depois de saber que ele inventava tudo aquilo para me consolar, para que eu pudesse ficar imobilizada naquela cama sem enlouquecer, ainda assim, até hoje, muitas vezes, consolando-me, eu invento universos inteiros. Absurdidades bárbaras. E acreditando naquilo que eu invento, eu me salvo e, então, a boa vida digna me resgata. Aliás, é melhor confessar logo que eu só acredito naquilo que eu mesma invento.
Muito tempo depois, encontrei bibliotecas inteiras, montanhas de livros que tentavam desvendar os caminhos das mulheres. Nessas horas, eu sorrio e revivo o segredo inventado pelo meu pai: não existem caminhos traçados, a gente tem que esperar uma mulher inventar, arriscar, trilhar; depois que ela inventa e trilha, todo mundo acredita e vive de suas criações. Se não inventar o que ainda não existe, não é mulher... Dizia o meu pai.
Eu bem me lembro: eu me senti pessoa importante com a verdade que meu pai inventou para mim. E sigo minha vida inventando, inventando, inventando...
Então, nesse mesmo momento, ouvi o absoluto silêncio que reinava no carro e vi, com surpresa, que Théo chorava. Ao mesmo tempo, Luiz, calmo e senhor de si, dirigia com cuidado, atento a tudo que eu falava.
Tudo ao contrário, eu pensei. Théo aflito, Luiz tranquilo. Beijei carinhosamente a nuca de Théo, coisa que o perturbava, mas de que gostava muito e que, apesar de tanto gosto, raramente permitia. Sim, eu o conhecia bem. Meu Théo. E ele deixou que lágrimas corressem soltas pelo rosto. Continuei beijando-lhe a nuca e, baixinho, perguntei pela próxima pergunta. Ele não se moveu. Luiz, agora risonho, meu Luiz inquieto, decidiu arriscar-se:
- Continua, quando seu pai morreu, você quis calar-se para sempre...
Théo estremeceu, mas se conteve. Respirei fundo e decidi que eu saltaria. Eu queria calar-me, mas talvez fosse hora de falar. De arriscar-me. Por isso, senti um calor doce no peito e meu corpo cresceu. Murmurei (era quase inaudível):
- Eu posso dizer que a página foi virada. Posso. Agora eu sei que toda gente mente. São seres infames, indignos da vida, seres de máquina. Posso dizer que as crianças escaparam das cavernas e aprenderam outras línguas. Novos dizeres. Agora estão livres. Digo isso e me calo quanto ao resto; fim.
Luiz se exaltou:
- É justo? Fechar o livro e pronto? Injusto...
Théo ainda chorava.
Continuei mussitando tomando coragem, mas decidida a falar. Ao mesmo tempo, enfrentava a imensa dificuldade de romper o hábito. Eu não queria repetir histórias, queria dizer apenas verdades. Abandonar rotinas é de fato morrer; é nascer sozinho, inventar um corpo novo.
Enquanto eu murmurava para tomar fôlego, para obrigar-me a dizer o que eu queria dizer, o novo, a novidade, o inaudito, tudo voltou a doer; o corpo inteiro e cada órgão, e, mais, cada única célula.
Eu voltara a ser dor, mas devia falar.
Então me lembrei de que eu era uma mulher, de que sabia inventar verdades e, nesse momento, cheia de coragem, despedi-me, mais uma vez, das velhas ordens.
Saltei, sem medo, para dentro do meu corpo novo. Novo desconhecido a ser desvendado e contado.
A queda não foi veloz nem violenta, pelo contrário, adentrando o meu corpo, pairando como pluma na brisa, eu podia ler ou ouvir - difícil distinguir se eu, verdadeiramente, lia ou ouvia - as inscrições que em mim mesma me revelavam.
- Naqueles dias o meu pai não podia mais levantar-se da cama. Na verdade, havia dois anos que ele vivia a vida dia a dia, com grande esforço, mal conseguindo respirar. Os pulmões haviam-se rendido. Mas ele não, ele não se rendia. Ainda é difícil falar nisso porque eu nunca pude compreender isso: que ele não se rendesse. Que quisesse viver quando já não se podia viver. Não havia nenhum ar.
A sua vida fora a mais ativa que jamais houvera; é impossível descobrir coisa que meu pai não tivesse feito ou que não estivesse pronto para tentar. Meu pai experimentava tudo com franca alegria. Seu verbo era experimentar. E porque sofria de escandaloso amor pela vida, era absolutamente humilde diante dela; e, pela mesma razão, era absolutamente inflexível para com a arrogância dos homens.
Então, quando ele não podia mais mover-se sozinho e, ainda assim, queria continuar vivo, eu me perdi.
Ele ficava na cama, permanecia ali, muito tempo, dias, muito tempo, meses, muito tempo, horas, muito tempo, agora já há anos. Ficava sozinho consigo mesmo, ou, penso agora, sozinho com a vida em si. Ainda me espanto. Assombra-me.
Se alguém aparecesse (raramente alguém tinha tempo para aparecer), ele recomeçava a falar devagar, com esforço, sobre as coisas comuns da vida: o futebol, a falta de chuva, o excesso de chuva, a corrupção dos políticos... Normalmente. Pacientemente. E não posso explicar-me melhor, mas havia gratidão, digo, misericórdia para com os que encontravam tempo para visitá-lo e, por isso, com grande prazer, ele voltava aos assuntos do cotidiano.
Entretanto, de fato e verdade, ele ficava sozinho quase o tempo todo, calado, imóvel, com as mãos cruzadas sobre o peito e, fixando-as, começava a girar os polegares lentamente, um em torno do outro, focado naquele delicado carinho entre dedos, pensando, pensando, pensando...
De vez em quando, num outro gesto de piedade, com misterioso meio sorriso, ele contava uma história. Por exemplo, desfiava uma complexa trama para caçar discos voadores (nos quais não acreditava) ou de como criar um partido político que, baseado no campeonato de futebol, dirigiria o país com justiça e prosperidade. Ou de como melhorar a educação nas escolas transformando todas as disciplinas em jogos de baralho.
Eu respondia que queria conversar sério, falar sobre ele, ele mesmo, sobre sua vida que... Ele me interrompia, assumia a autoridade dizendo que não era moleque, que estava falando sério, que aquelas ideias não eram brincadeiras ou banalidades, nem inconsequências, eram puras ideias proféticas. E ditava-me com firmeza: “Quer ver? Escuta”.
Voltava a se calar. Assim, ele me silenciava.
Depois, de repente, retomava ideias mirabolantes e infalíveis para se ter vida boa, dizia ele, ou então, queria falar sobre o meu futuro. E recomeçavam as histórias, os contos, os casos. Todos sempre dizendo o mesmo: acreditar, benquerer, caminhar. E em seguida (só depois do abc: acreditar, benquerer e caminhar), não se preocupar. Jamais se preocupar. Sempre assim as histórias do meu pai.
Impossível saber se era piada. Ou melhor, difícil aceitar que não era piada. Não era.
Àquelas alturas, completamente arruinada, eu desmoronava porque não conseguia ajudá-lo. A derrocada do meu orgulho era infinita. Sentia-me ignorante e culpada diante dele: eu não conseguia alfabetizar-me apesar de todo o seu esforço. E sofrimento. Difícil saber quem sofria mais. Impossível dizer quem sofria mais.
Ele queria minha ajuda, é certo, acreditava em mim. Acatava qualquer sugestão, aceitava tratamentos e experiências, cumpria as prescrições, nunca falava de dores nem doenças, de lamentos ou lamentações. Mostrava-se dócil como um cordeiro. Mas firme como bom mestre.
Falava sobre a morte, falava sempre, falava seriamente e falava também com zombaria.
Eu me desesperava. Tentava inventar alguma história, urgentemente, alguma verdade que o consolasse, que falasse do amor que eu sentia, da admiração, da gratidão... Do medo que a morte dele tirasse a minha vida, era isso, mas isso eu não podia dizer a ele, não podia, eu era covarde, eu era eu. Eu tinha medo da vida sem ele. Eu me emudecia.
Ele sabia disso, hoje eu sei; daí, tanta piedade para comigo.
Era durão, não chorava, não aceitava desistências. Mas chorava por causa dos filhos – só pelos filhos -, só em determinadas ocasiões e, mais, chorava quando sozinho com a mãe dele, a minha avó, que me contava tudo em segredo, com sincera admiração pelo seu filho.
Ele chorava quando os filhos nasciam, quando as meninas menstruavam pela primeira vez, quando os homens tinham a primeira relação sexual e, chorava muito, se algum dos filhos desrespeitasse o bem público, pois, neste caso, ele se enchia de vergonha. Meu pai tinha um deus: o bem público.
Enfim, a verdade é que ele queria me consolar e me educar antes de morrer. Eu me angustiava. Eu inventava histórias: ele conhecia todas e ria de mim com delicada ironia. E sussurrava: ‘não se importe, vai conseguir...’
Tudo piorava a cada dia: cada hora menos ar, cada noite mais insônia.
Aconteceu a noite em que ele tentou levantar-se sozinho e caiu. Ele se jogou no chão. Com que intenção, meu Deus? Eu consegui – com que forças, Deus meu? – carregá-lo e colocá-lo de novo na cama e antes que eu terminasse de ajeitá-lo entre os lençois, ele sussurrou de maneira incontestável:
- Chega! Chega! Sai daqui, quero ficar aqui mesmo, sai...
Baixei a cabeça, ‘sim senhor’, e recuei. Eu não havia atravessado a porta  e ele soprou novamente:
- Desculpa, desculpa, não aconteceu nada, nenhum osso quebrado, viu? Os bons têm sorte...
Voltei. Lá estava o mesmo meio sorriso travesso ajeitando-se na posição de sempre: deitado de costas com as mãos cruzadas sobre o peito, girando os polegares.
E o dia seguinte foi um dia bom; brincou descrevendo a bela vista através da janela, outra piada, pois, depois da janela só havia o paredão do edifício vizinho. Uma montanha de concreto. Quando me percebeu fixando aquele paredão com perplexidade, riu mais largo e murmurou:
- Deve ser bonito depois do paredão... Não deve?
- Deve.
Ao longo do dia, elogiou a comida que eu preparei – que ele não comeu -, perguntou sobre o meu trabalho, contou (mais uma vez) dos tempos da juventude no exército, da disciplina, do medo da guerra. Fez novas previsões para o futuro do país.
Senti-me reconfortada e sonhei com uma noite tranquila. Contudo, chegou outra noite de pesadelos. Os piores: nenhum ar, nenhum sono, só a aflição e a angústia, minha dor e o seu olhar de compaixão por mim.
Ao amanhecer, fugi. Iam levá-lo para o hospital e eu não tinha forças para impedir. Ele gostaria que eu impedisse. Ele queria, eu sabia. E eu, covarde. Não posso perdoar-me ainda.
Os dias e as noites no hospital foram uma mistura esdrúxula de amor e medo. Ele sorria, dizia ‘obrigado’ a todos e a tudo, desculpava-se por... Por quê? E tudo era cansaço, o mais escandaloso e humilhante cansaço. Algumas vezes o mundo parecia estar acabando e, então, eu segurava a mão dele e o tempo parava.
De repente, ele encontrava um pouco de ar, murmurava ‘obrigado’ e soltava-se de minhas mãos. Depois, se justificava, soprando sílaba por sílaba: ‘obrigado, soltei sua mão porque está calor, viu?’. Parei de pensar. Parei de falar e, pela primeira vez, parei de sentir.
E chegou um dia, ou melhor, uma tarde, por volta das catorze horas, em que ele falou: ‘vou morrer hoje’, fingi não ouvir, ele fez piada: ‘estou bem treinado, passei muito tempo ensaiando a posição correta’.
Não ouvi.
Começou, pareceu-me, a simular uma confusão mental, por piada ou piedade, não sei, pois, de fato, as pessoas tornavam-se mais tranquilas e quietas enquanto ele ‘delirava’. ‘Pelo menos assim, delirando, não está sofrendo mais’: diziam e ele ouvia, ouvia, ouvia, e eu via. Ele se mostrava confuso, falando coisas absurdas – caçadas a discos voadores, o futebol e a ética dos povos, a boa educação e os jogos de baralho - e as pessoas calavam. O murmúrio desagradável desaparecia e alguma serenidade reinava.  Quando seu olhar exausto se encontrava com o meu, ele dava aquela piscadela de quem está fazendo cena. Um palhaço brincando com a morte? Protegendo-se num falso delírio? Protegendo-nos? Vingando-se ao se colocar fora de alcance? Nada disso? Tudo era simples e puro deliro?
 Então, num repente, ele arrancou os fios dos aparelhos e do oxigênio. As pessoas começaram a gemer, ninguém se moveu diante da autoridade do gesto. Num esforço gigantesco, sentou-se na cama e murmurou que ia descer, queria ficar de pé. Eu explodi: Não! E coloquei minha mão sobre seu peito impedindo-o. Ele olhou-me com... Que palavra? Sussurrou, tirando forças não posso dizer de onde, pois ele não tinha ar, não tinha pulso, não tinha músculo, não tinha nada, não tinha quê nem pra quê..., mas tinha força, tinha desejo: ‘com li-cen-ça, por fa-vor, não que-ro ser mal e-du-ca-do, eu vou fi-car de pé’.
Gritei: NÃO! E cachoeiras de lágrimas começaram a correr. Ele repetiu ‘es-tou di-zen-do que vou des-cer’, eu berrei novamente ‘não, não, não, por favor, eu vou lhe dar um remédio’, e empurrei-o de volta sobre os travesseiros. Fui cortada por duas flechas de fogo disparadas por dois olhos pequenos e tristes.
Não se derruba um titã impunemente e, agora, meu choro era para sempre inconsolável. Não era choro. Não era nada. Sabia-me simplesmente condenada à sobrevivência eterna. Não posso me perdoar e mereço o castigo: a sobrevivência eterna. O desespero da imortalidade.
Recebi outro olhar amoroso. Ele me perdoava e de rendia.
Desatinei para todo o sempre.
Digo melhor: literalmente ele se declarou vencido e orou: ‘Meu Deus, meu Deus, não está me ouvindo? Será possível? Não me ouve? Me leva...’.
Ele disse isso quando eu o derrubei sobre os travesseiros.
Eu e a sobrevivência: dor sem pausa.
Dei-lhe vários sedativos, ele engoliu tudo calma e cansadamente. As pessoas desapareceram, estávamos sozinhos. Explico: completamente sozinhos. Eu estava ali e ali estava ele. Outras pessoas também estavam ali. Mas nós todos estávamos completamente sozinhos. Escapou da minha boca ‘não aguento mais’, ele ouviu, disse ‘Deus te abençoe’; eu menti: ‘não me demoro’.
E fugi.
Escolhi uma corrida escadaria abaixo querendo que os andares nunca acabassem, esperando que fosse infinita a descida. Eles acabaram, eu cheguei ao chão. Eram seis horas da tarde, havia muita gente na rua, carros, uma passeata, um protesto, uma procissão, gritos, mendigos, trabalhadores, crianças, cães e buzinas. O ruído da vida.
Eu via todo esse barulho e só ouvia silêncio. Lembro-me bem: caminhei entre pessoas, vi rostos, pernas, cães e carros; vi faixas de protesto (por que sei que era protesto se não li nenhuma? Por que revejo aquelas letras com nitidez, a mesma nitidez daquela hora, e não sei – ainda não sei - que palavras estavam ali? E sei que era um protesto). Tudo acontecia como se alguém tivesse apertado a tecla ‘mudo’ do filme da vida. Caminhei por tempos, esperando sem esperança, sem ideia na cabeça, nenhum caminho a seguir, eu caminhava...
Cheguei à minha casa e me joguei sobre um sofá onde permaneci eternamente dobrada, encolhida, imóvel, pedra.
A vida continuava muda. Tudo sólido. E assim ficou, e assim eu fiquei.
Quando o telefone tocou trincando a solidez de tudo, não atendi. Levantei-me e fiz o caminho de volta para o hospital.
O mundo ainda era silêncio, mas não havia ninguém nas ruas. Nem cães nem carros. Tampouco protestos. Estava escuro e havia ar. Caminhei devagar, subi devagar as mesmas escadas e o encontrei morto. Beijei seu rosto, falei ‘eu te amo, até breve’.
Por que eu falei isso? Eu te amo, até breve. Verdade, eu disse: eu te amo, até breve. Eu sei por quê. Foi um pedido: ‘por favor, até breve’.
Depois disso, lembro-me de estar eternamente chorando e da certeza de que eu o havia matado. Lembro-me também de que continuo chorando com a certeza de que o matei.
Às vezes, ele me diz que não sei nem dirigir um carro, que nem gosto de dirigir um carro e que, portanto, é melhor desistir dessa uma vida besta e entrar logo para um circo.
Eu rio, mas depois ainda choro.
Ele ri do mesmo jeito, irônico e carinhoso ao mesmo tempo.  Diz que mulheres inventam coisas inúteis e fazem a vida ficar boa. Eu digo que ele está copiando a Cecília Meireles e ele responde que não foi apresentado a nenhuma Cecília. Conto que inventei homens imprescindíveis e minto que não me sinto culpada. Ele acha graça e debocha. Continua inventando piadas e eu tentando compreendê-las. Agora, não me dá mais conselhos nem orientações.
Eu sempre choro. E tenho certeza de que o matei.
Eu disse que queria calar-me.

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EU QUERO SABEDORIA.

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Estudando: A FOME É UMA ARMA DE GUERRA.

"5. O Livro: O Mundo Estava Calado Quando Nós Morremos

Ele escreve sobre fome. A fome foi a arma de guerra da Nigéria. A fome quebrou Biafra, trouxe fama a Biafra e fez Biafra durar o tempo que durou. A fome fez os povos do mundo repararem e provocou protestos e manifestações em Londres, Moscou e na Tchecoslováquia. A fome fez a Zâmbia, a Tanzânia, a Costa do Marfim e o Gabão reconhecerem Biafra, a fome levou a África até a campanha presidencial de Nixon, e fez os pais do mundo todo dizerem aos filhos para raspar o prato. A fome levou organizações de ajuda a fazer transportes clandestinos de comida durante a noite, uma vez que nenhum dos lados conseguia chegar a um acordo quanto às rotas. A fome ajudou a carreira dos fotógrafos. E a fome fez a Cruz Vermelha Intenacional chamr Biafra de sua maior emergência, desde a Segunda Guerra Mundial". 

in MEIO SOL AMARELO, Chimamanda Ngozi Adichie, companhia das Letras, SP, 2018.

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PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE A VENEZUELA.

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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

NO FUNDO NÃO HAVIA ÁGUA ou ENTRE O SUJEITO E A COISA

( nota prévia: esse é o primeiro conto do livro INCONTÁVEIS,  de que publicamos o prefácio antes. Como dissemos é um livro denúncia. Denúncia da banalização do mal que tomou nosso cotidiano brasileiro e denúncia da desagregação da linguagem com a perda do diálogo em função da ordenação prescritiva da língua. O livro foi escrito entre 2015 e 2017. Boa leitura)

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NO FUNDO NÃO HAVIA ÁGUA ou ENTRE O SUJEITO E A COISA

Os urutaus são aves noturnas que vivem nas regiões mais quentes das Américas; estão inscritas no imaginário da gente americana por suas características singulares que estimulam facilmente a criação fantástica.  O Urutau é conhecido como “Mãe da Lua” porque, sem mover a cabeça, acompanha o movimento do astro da noite por uma fissura linear em pálpebras fechadas. Recebe também o nome de “Emenda-toco”, pois camuflando-se através da plumagem cinéria e de uma absoluta imobilidade, desaparece nos troncos de árvores, especialmente em paus secos e apodrecidos. ‘Urutau’ pode ser uma corruptela do tupi-guarani Guyra (ave) e Táu (fantasma); mas pode ser que seja onomatopeia do canto da ave. Canto plangente em três ou quatro notas graves, sempre decrescentes. São várias as lendas sertanejas que contemplam o urutau. "O canto dessas aves noturnas, entre melancólico e fúnebre, é considerado poético por uns, de mau agouro por outros. Sem dúvida impressiona fortemente quando, alta noite, ressoa sonoro na mata. (...) Talvez ‘dó - sol – mi- bemol – dó’, harmônicas na afinação e no volume, imitam perfeitamente um oboé (Rodolpho von Ihering, Dicionário dos animais do Brasil)”. 

"Todo o mundo dormindo. Só o chochôrro mateiro, que sai de debaixo dos silêncios, e um ô-ô-ô de urutau, muito triste e muito alto". (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas).

"O urutau no fundo da mata solta as suas notas graves e sonoras, que, reboando pelas longas crastas de verdura, vão ecoar ao longe como um toque lento e pausado do ângelus". (José de Alencar, O Guarani).


As dores eram inimagináveis. Havia horas ela suspirava e se contorcia; o corpo todo era uma barriga fora de controle. A mulher era uma barriga que dilatava e, em seguida, se contraía de acordo com uma alheia vontade. A mulher imaginava uma imensa onda marinha elevando-se dentro de si e, logo, invadindo tudo, engolindo seu corpo, inundando o quarto, a casa, o mundo. E tudo terminava num afogamento de tudo.
Então, a mulher reagia. Não viera ao mundo para acabar afogada, mas para cumprir os maravilhosos projetos de uma vida vitoriosa.
O quarto: frio, claro, frio, odioso, frio, piegas, frio. Quatro pessoas. Três inteiramente cobertas de branco, incluindo touca e máscara: dois homens e uma mulher. E estava também ali outro homem: sério, muito sério, pode-se dizer carrancudo, de braços cruzados, vestindo um ridículo avental verde que lhe chegava aos pés; e, para piorar, pensou a mulher, touca e máscara igualmente verdes. Risível. Parecia um desolado papagaio mudo e murcho. Ela continuava pensando. Olhou-o por mais um instante: sem dúvida era ridiculamente cômico. Na verdade, achava o acontecimento todo de uma estupidez grotesca; bizarro e desagradável. Precisava terminar logo com aquilo.
O homem sério e murcho permanecia imóvel e ela, mais uma vez, entre um pico e outro de dor, perguntou-se sobre o que se passava dentro da cabeça daquele homem. Mas lembrou-se de que desistira disso havia muito tempo; agora, havia muito, desconsiderava os pensamentos dele. Considerava-os perigosos para os projetos de uma vida exitosa e, assim, pusera fim a qualquer consideração.  Os olhos do homem, como sempre, estavam voltados para algum lugar ilocalizável. Não se lembrava, havia muito tempo não se lembrava, de quando ele lhe olhara dentro dos olhos. Mas houvera uma última vez, lembrava-se bem. Não se lembrava de quando, mas houvera uma última vez, lembrava-se, e, mais uma vez, um tremor inominável estreitou-lhe o peito. Houvera uma última vez, lembrava-se disso muito bem. Nada mais. Última vez.
Assustada com a força de tão inoportuna lembrança encontrou-se novamente no meio da batalha que se travava dentro da sua barriga como se um animal feroz estivesse enjaulado ali. Quis chorar; mas também havia decidido que não, nunca mais choraria, decidira jamais chorar, e também decidira outras tantas coisas: casar-se-ia, seria feliz, teria sucesso, não permitiria que nada desse errado em sua vida. Afinal, não era estúpida, pelo contrário, era inteligente, era diferente. Sim, parecia-lhe estúpido ser fraco e triste. Portanto, seria, porque queria ser, a redenção da tradição de fracassados, excluídos e mal sucedidos. Era assim que a mulher via seus antepassados. Seus antecessores, a seu ver, eram, na verdade, um punhado de débeis imbecis.
Com ela seria diferente. Seria magistral. Decidira: esposa perfeita, mãe notável, amiga impecável, profissional exemplar, cidadã consciente. Uma pessoa realizada, afinal. Pura questão de atitude e de força de vontade. Coisas que não lhe faltavam. Portanto, obviamente, tudo daria certo, todo mundo a admiraria. Tudo muito óbvio. Era esperta, não cometeria erros, não se desviaria dos objetivos. Planejava a vida nos mínimos detalhes. Tudo bem pensado. Sem divagações. Obrigava-se a permanecer em constante treinamento.
E tudo estava transcorrendo maravilhosamente bem. A vida é só uma questão de atitude, a mulher repetia para si mesma. Ela tomara a iniciativa, ninguém podia inegável. Sentia-se, apesar de tudo, muito bem entre aqueles malditos picos de dor.
Estava casada com o homem com quem resolvera casar: o melhor partido. Rico, aristocrata e inteligente (gostava de imaginar assim, pensou assim quando aprendeu a palavra ‘aristocrata’ que, era preciso confessar, não compreendia muito bem, mas gostava da palavra e a repetia sempre). E mais ainda, tratava-se de homem muito sistemático, diziam todos. Homem que não dava atenção a ninguém, fechado e antipático, antissocial. Contudo, com muita perseverança e grande habilidade, ela acabou por lhe descobrir o segredo: ele era um triste. Um solitário amargurado.
Um egocêntrico, ela considerou entre meio sorriso. Um fraco, em outras palavras. E matada a charada, seria fácil a estratégia. Decidiu: ele não lhe escaparia. Casar-se-iam. Ele não teria escapatória. Maior o ego, mais simples a armadilha. E foi assim que a mulher fingiu uma fidelidade canina. Quem a removeria? Simplesmente impossível.
A mulher transformou aquele infinito orgulho masculino no maior aliado. Ela seria exatamente tal como ele quisesse. Ou ainda melhor: que ele fizesse exatamente como quisesse fazer, ela não se importaria com nada. Ofereceria um amor incondicional.  Ele não teria saída, pois, afinal, era um fraco.
A mulher nunca questionou aqueles tristes e solitários sentimentos sombrios. Jamais tocaria em assunto tão íntimo, dizia para si mesma. Ele ficaria grato. Aceitou, respeitou e suportou as obscuras e impenetráveis emoções do homem. Quem a condenaria? Muito pelo contrário, ela seria admirável. Não teve dúvidas, e assim se deu. Para completar nunca deixou de lhe declarar amor e lealdade eternos. Não perdia oportunidade de repetir.
Estava feito. Conseguira. É verdade que as coisas não se passavam conforme seus mais íntimos sonhos, mas não importava. O importante era o objetivo. A cerimônia do casamento foi como ele quis que fosse: foi nenhuma. E se mudaram para uma casa comprada pronta e muito bem decorada ao estilo da moda: um formoso sítio nos arredores da cidade que rapidamente transformava-se numa grande metrópole. Não houve viagem de lua de mel e também se importou. Eram um casal diferente, de personalidades fortes, diziam, e ela gostava de ouvir, e reafirmava aquilo que todos diziam. Eram um casal moderno. Ela completara o primeiro projeto; não tinha do que se queixar. Sentia-se invejada pela maioria das mulheres. Isso importava. Era-lhe maravilhoso.
A mulher continuava rememorando a vida ou, quem sabe, tentando acalmar-se entre os terremotos de dor.
Havia conquistado medalha de ouro na faculdade; ‘várias vezes’, recordou-se; trabalhava para uma grande multinacional com chances de carreira brilhante - aliás, estava certa de que chegaria à diretoria.  Ninguém duvidava. Era focada, trabalhava como ninguém, uma incansável. Todo mundo repetia tais palavras. Ela comemorava; afinal, era uma mulher popular, bonita, invejada. Um exemplo. Quem importava se o marido é era um mal-humorado esquisitão? Pior para ele. Um excêntrico. Que fosse se assim quisesse, e que pagasse o preço.
Agora estava nascendo o primeiro filho.  Segunda parte do projeto de vida. Parto natural: outra decisão da qual não abriu mão, apesar de conselhos contrários. O risco – e a dor - era parte do plano de uma vida bem sucedida. Provaria definitivamente que era uma mulher corajosa e diferenciada. Não se dava ao luxo de temores. Parto natural – para muitos considerado risco - era prova de que era uma mulher de verdade e não viera ao mundo para brincadeiras. Viera para vencer.
Que posição impensável! Pensou ‘posição impensável’ quando se percebeu deitada numa maca de ferro, de pernas abertas, numa sala fria, rodeada por quatro pessoas aflitas, empolgadas como se estivessem para salvar o mundo. Uma onda de dor dilacerante e os idiotas de branco estimulando entusiasticamente: ‘vamos lá, respire, vamos lá... Está quase...!’
Tudo absurdamente estúpido, obviamente bizarro; mas não daria sinal de crítica; tampouco de sofrimento e desamparo. Não lhe convinha. Era uma mulher independente.
 A enfermeira mantinha-se calada e ajudava aos homens muito concentrada. Ajudava aos homens. Calada. Idiota. Imbecil. O que era a vida para aquelas quatro pessoas? Nada, nada. Nada além do cumprimento de um destino. Uma resignação, uma mesmice. Respirou fundo, tentou sorrir, gemeu um agradecimento e, novamente, convenceu-se de que tudo estava correndo bem. Uma pessoa muito bem sucedida. Uma vida diferenciada, cheia de grandes projetos e muitas responsabilidades, repetia-se.
Olhou outra vez para o homem papagaio mudo de braços cruzados: ele fixava a barriga sem piscar. Estava emocionado, chamou-o ‘meu bem’, ele se aproximou e sem dizer palavra segurou-lhe a mão. Não a olhou nos olhos.
Subiu outra onda torturante e ela gritou. Sentiu que lhe arrancavam as entranhas e era verdade: suas entranhas escorriam pela vagina esvaziando-a por inteiro.
Houve um segundo de silêncio absoluto e, logo, se ouviu um choramingo minguado, sentido, magoado. Alguém, um dos homens de branco, suspendeu à altura da própria cabeça, uma coisa suja e mal cheirosa, uma coisa que tremia. A enfermeira idiota bateu palmas e quase berrou: ‘nasceu o herdeiro’! A coisa chorou alto.
A mulher sorriu de volta simulando empolgada alegria, aliviada com o imediato fim das tormentas de dor, quase disse ‘graças a Deus!’, mas disse ‘meu filho!’ e abriu os braços. Colocaram-lhe aquela coisa suja e malcheirosa sobre seu peito e a coisa suja e mal cheirosa calou-se imediatamente quando tocou seu peito suado e arfante. Abraçou a coisa empenhando o seu melhor desempenho e olhou para o homem ao lado: ele estava trêmulo e lágrimas caladas rolavam pelo rosto endurecido. Fixava a coisa e balbuciava incompreensivelmente. A mulher soube que eram palavras de amor e tentou se empolgar. Repetiu: ‘meu filho, meu filho querido’ e encarou a criança.
Era um rosto redondo, pequeno, a pele evidentemente morena, embora estivesse coberta de sangue e outros restos. Fartos cabelos negros e lisos se destacavam. Os olhos, fechados. Estava sossegado, nu, entregue.  Não se parecia nada com ela, a mulher pensou. Sabia-se grande, atlética, de pele clara, sardenta, rosto largo, sorriso amplo, enormes olhos azuis.
Continuou detestando tudo. Continuou sem dizer que detestava tudo. Outra vez teve vontade de chorar, mas não chorou. Pensou que aquele pequeno rosto moreno de cabelos negros era a prova definitiva de que tudo aquilo lhe era completamente estranho, mas também era a prova de que estava vencendo batalha da vida. Alcançando a meta. Estava obrigando a vida a dar certo. Estava quase lá, quase no auge, não ia fraquejar. Um filho era o fecho lógico e imprescindível de uma vida bem sucedida na sociedade em que decidira brilhar. Pensou que logo logo poderia aproveitá-la, ela, a vida, usufruir do próprio sucesso, gozar de um-tudo. Era vitoriosa. A mulher pensava intimamente e sentiu-se, absolutamente, secretamente, visceralmente, feliz.
 Finalmente pegaram a coisa dizendo entre vivas: ‘é lindo, saudável, grande, perfeito’. ‘Você está de parabéns, não se preocupe, não fique ansiosa, logo o traremos de volta para você’.
Que o levassem, sentia-se aliviada e livre. Procurou pelo homem carrancudo: ele saíra seguindo os passos da enfermeira alvoroçada que carregava o bebê. Suspirou, mas sorriu entre dentes. Ela lhe dera o filho; ele jamais se esqueceria. Era irremediável. Podia descansar.
Mas logo logo lhe trouxeram a criança de volta. Ainda não havia se recuperado, sentia-se apreensiva: feliz com a realização, aborrecida com o estrago feito no corpo, reflexiva quanto à continuidade de seus projetos. Não sentia dor, era verdade; sentia-se bem, diria até totalmente bem não fossem os seios grandes e inchados, sensíveis e feios. Uma deformação. Não fosse a barriga edemaciada e, ao mesmo tempo, tensa. Era horrível. Melhor não pensar. Repetiu-se.
A criança chegou limpa, cheirosa, lindamente vestida, trazida pelo homem mais sério ainda e também ainda vestido com o absurdo avental verde. Continuava concentrado, evidentemente orgulhoso e desajeitado com a criança nos braços.  Passou o bebê para enfermeira que anunciou entre gritinhos: ‘hora de mamar’. A mulher esforçou-se para não gritar. Estava em pânico. Distraída com o bebê, a enfermeira continuava a cantilena: ‘é bom começar logo a amamentação’.
Arrepiada, medo de desmaiar, incontáveis vezes a mulher temera aquela hora; mal podia imaginar tamanha bizarrice; um abuso, uma indecência, coisa abjeta. Muitas vezes sonhou que escaparia de tal primitivismo, incontáveis mulheres não têm leite e, certamente, seria o seu caso; contara vários casos na família; não conseguia encontrar nenhum porquê, nada que justificasse a estranha situação de ser sugada por um pedacinho de carne; não encontrava nenhum sentido na fala irrefletida: ‘é saudável amamentar’; tão fácil, tão simples encontrar tudo nas prateleiras do supermercado; tudo pronto, bem dosado, exato,  bem feito, nada com que se preocupar. A conversa sobre a importância da amamentação era imaginação de mulheres recalcadas, fracas, sem ideias próprias ou, então, era ideia dos homens, livres disto, deste estúpido vexame de ser chupado, consumido ávida e dolorosamente por uma boca faminta. Fácil falar, muito fácil, e fala quem não se dá ao trabalho, a mulher pensava e repensava. Somente as idiotas complacentes e sem ideias próprias podiam gostar de desmesurada coerção. A mulher ruminava.
Entretanto a mulher sorriu com calculada doçura, disse ‘sim, sim, dê-me logo o meu filhinho’ e respirou fundo. Engoliu a análise inteira e estendeu os braços. A enfermeira foi abrindo-lhe a camisola e, ajeitando a criança em seus braços, expôs-lhe o seio. Colocou o bico túrgido na boca da criança que, tranquila e voraz, ainda com os olhos fechados, agarrou-o imediatamente.
Horrorizada, a mulher estremeceu, quase desmaiou. Era repugnante; sentia-se desconsiderada e submetida. Abusada. Um ser nada. Tudo instinto demasiado. Insuportável. Era ninguém àquela hora. Não era. Era ódio, era nojo, era asco; tudo lhe parecia de incalculável irracionalidade. Quase desistiu: a cabeça rodou e quis gritar, quis berrar contra a mediocridade; quis jogar longe aquela coisa inominável que queria devorar-lhe sem um mínimo de consideração; sem permissão sem pedir licença. Por alguns instantes, travou-se uma inenarrável luta entre instintos de sobrevivência e os sentimentos de uma mulher escandalizada e só. Mas ninguém percebia. Então, de repente, a criança afastou-se com força e arregalou os olhos; os olhares da mulher e do bebê encontraram-se pela primeira vez. E não foi o olhar, foi um corpo que registrou a iniludível presença de Medeia. Houve pânico. A criança começou a se contorcer e a berrar; um choro desesperado, um desconsolo infinito.
Horror em dobro, repercutido no olhar da mulher estarrecida e ao mesmo tempo desesperada pelo desamparo daquele ser que se debatia em vão, desvalido, à sua mercê. A mulher se conteve mais uma vez e tentou acalentar a criança com imensa força de vontade. Nada. Ambos se tornavam mais e mais aterrorizados.
O homem observava inquieto e confuso. Mas nada fazia.
A enfermeira socorreu dizendo com irritante ternura: ‘tudo bem, calma, tudo bem, isso acontece’ e pegou a criança dos braços da mulher. O bebê se aquietou; a enfermeira anunciou que faria uma mamadeira e que era normal, nada demais. Acontecia. Muitas vezes. Normal. Muito normal, repetia enquanto balançava a criança.
A mulher olhou para o lado e lá estava o homem fixando bebê com os olhos cheios de lágrimas. Sentiu raiva, antipatia, nunca vira aqueles olhos fixados nela, menos ainda cheios de lágrimas. Controlou-se novamente, abriu um sorriso e soltou uma voz amorosa: ‘eu queria tanto, tanto’, ‘da próxima vez vai dar certo’, ‘você vai ver, vai dar certo’.
O homem balançou a cabeça ligeiramente. Parecia concordar. Parecia.
Não deu. Nunca deu certo. Miguel recusou o seio que lhe foi oferecido, incontáveis vezes, diante de todo mundo. Recusava peremptória e categoricamente. No íntimo, a mulher sentia-se aliviada; no íntimo, um alívio que o bebê recusasse. A culpa não era dela.
Mas, pacientemente, a mulher ofereceu o seio à criança engolindo o próprio horror, ou tentando engolir, até que, finalmente, afinal, enfim, foi-lhe dado o veredicto: ela não tinha leite! Infelizmente. Uma pena. Alguém disse. Disseram também: mas acontece. E nada demais, uma mamadeira bem dada é sempre bem vinda. Tudo certo. Normal. E assim ficou sendo.
Miguel cresceu devagar e arredio. Assustadiço. Não mamou e demorou a caminhar; não sorria; dizia poucas palavras, e somente quando se insistia muito.
A princípio, dormia pouco e chorava muito. O homem pegava-o no colo; ele se acalmava e até adormecia. O homem oferecia-lhe comida; ele aceitava e parecia satisfeito. Mas a mulher não gostava; dizia que era seu trabalho e se ofendia; murmurava ‘homens não sabem cuidar de crianças’; e reclamava de que o marido estava atrapalhando a relação com seu filho. E pegava a criança do colo do homem. Recomeçava o combate.
Muito cedo, Miguel revelou um estranho apetite: começou a mastigar roupas e pedaços de madeira. Mantinha o olhar perdido; não gostava de abraços nem de companhia. Às vezes, poucas vezes, timidamente, buscava o corpo da mãe que nunca estava disponível. Ela trabalhava demais; as tarefas, de casa e de fora de casa, eram intermináveis; estava sempre preocupada e cansada. Impaciente. O filho parecia-lhe manhoso, precisava de castigos para crescer mais esperto, mais consciente da vida, mais forte. Temia que ele se tornasse um bobalhão resignado. E o castigava. Que ficasse algumas horas trancado no quarto: aprenderia a ser mais corajoso e independente.
Assim foram os primeiros anos. Então, ele ficava quieto e silencioso no quarto.
O homem nada dizia; em alguns momentos, também timidamente, tentava abraçar o filho, buscava algo para balbuciar; mostrava-lhe os animais, as plantas e, especialmente, tentava ensinar-lhe a construir objetos de madeira; cogitava que aquele estranho gosto de mastigar madeira relacionava-se ao gosto do próprio pai de trabalhar com a madeira; logo, pensava o pai, a estranha mania seria resolvida quando a criança aprendesse a amar e brincar com ela, como ele, o pai, tanto gostava.
O pai construía bonecos, bancos, mesas, armários, cavalinhos. E fazia também esculturas enormes; esculturas que pareciam árvores acariciadas e modeladas pela mão do homem sério. Árvores aflitas. Árvores serenas. Árvores exuberantes. Era o passatempo do homem. Sonhava silente e solitariamente: certamente comer madeira era apenas um modo diferente de parecer-se com o pai; com ele, certamente. Ficava feliz; encontrava ali um laço. Um laço! Um laço? Desconversava. As árvores são boas companhias. Cogitava o pai. O filho não ouvia. Ouvia? Ouvia, certamente. Apenas não dizia nada. Pensava o pai, e tudo continuava como sempre.
O menino olhava-o com o canto dos olhos; mal se movia; algumas vezes fechava os olhos enquanto o homem balbuciava maravilhas sobre a madeira; outras vezes, simplesmente obedecia e, calado, serrava os troncos imitando mecanicamente os gestos do pai.
O pai ficava triste; ou nervoso. Aquilo não era um laço. Era? Às vezes, resolvia castigar; chamava à ordem, demonstrava autoridade, sacudia verdades para a criança. Nesses momentos, era hora da mulher aparecer; ficava brava, puxava o menino pela mão, dizia ‘meu menino, meu menino, não ligue, não ligue, ele está bravo, mas vai passar’ e carregava-o para longe.
Então, o menino ficava leve, gostava; fechava os olhos, deitava aconchegado entre os cobertores e dormia. A mulher sentia-se com o dever cumprido e pensava, ao mesmo tempo, que se vingava do homem que mimava aquela criança esquisita. Por que o chamego com o pirralho? Por que tanta atenção, tamanha consideração com o fedelho e nenhuma atenção para com ela, que lhe dava tudo, que fazia tudo por ele?
E então, logo, voltava as costas para o fedelho e sumia; tinha muito trabalho a fazer. A criança ficava quieta, imóvel, sem saber-se. A mulher desaparecia e a criança permanecia ali: paralisada entre os cobertores, sem saber-se.
Um descompasso. E o tempo passava.
O homem falou em ter outro filho; seria bom para Miguel, seria bom para todos. Falou timidamente. A mulher negou-se peremptoriamente. Se estavam com dificuldades com um filho, imagina com dois? ‘Onde você está com a cabeça?’ E vieram discussões. Muitas. Miguel ouvia mudo. Observava quando o pai cedia. O marido cedia. Ainda bem. Cessavam as discussões. Uma criança. O que pode ser isso? Miguel se perguntava. Tudo era muito confuso.
O menino chegou bravo e sozinho à adolescência; calmamente selvagem. Pouco falava; observava a mãe com estranha atenção e nenhum comentário. Não tinha amigos, não gostava da escola e, por vezes, sumia inexplicável e irremediavelmente. Ninguém podia encontrá-lo; inútil procurar. O menino tinha o estranho dom de desaparecer.
Reaparecia de repente com um meio sorriso nos lábios e, no mais das vezes, carregando alguma carcaça nojenta. Restos mortais, sempre. Ossos, caveiras de animais diversos, pele de cobra, répteis ressecados, pequenos animais mortos.
Começou a colecioná-los num barraco no fundo do quintal.
 O pai revoltou-se: inadmissível tamanha barbaridade. Miguel nada dizia e admirava os restos. Então, o homem invadia o barraco. Limpava tudo, enterrava e, algumas vezes, surrava Miguel. E deixava-o de castigo, sentado ao seu lado enquanto trabalhava silenciosamente na marcenaria. 
A mulher discordava sempre e recomeçavam as brigas. O adolescente ouvia e observava.
Não chorava e continuava olhando para o pai com olhos indefiníveis. Mais assustados que assustadores. Aprendeu que a mãe que vinha sempre para discutir com o homem, para defender o ‘meu menino’, e mais, defender o direito à diferença, à individualidade, ao gênio mal compreendido. E também: ‘não está fazendo mal a ninguém, jeito dele; o que é que tem demais nisso?’
O homem cansou-se. O homem, cansou-se. Cansou-se o homem.
Enfim, Miguel ganhou direito à coleção de restos. E o barraco no fundo do quintal encheu-se de pedaços de morte. Em pouco tempo, Miguel mudou-se para o barraco e passou a ficar muito tempo entre eles. Examinava, admirava e tentava organizá-los. Era difícil. Muito difícil.
Certa vez, a mãe surpreendeu-o amarrando um gato numa trave de madeira. A princípio, apavorou-se, mas ficou espiando à distância. O menino havia amordaçado o gato e o amarrava prendendo as costas do bicho sobre um x de madeira; as patas ficaram bem presas em cada ponta do x. Depois, o menino afiou um graveto com uma faca, fez uma ponta bem comprida e furou devagar o olho direito do felino; ficou observando o escoamento de uma secreção escura; molhou o próprio dedo, levou-o à boca e provou a secreção; fez cara satisfeita. Repetiu a operação com o outro olho enquanto o gato desesperado se convulsionava preso ao x de madeira.
Paralisada, a mulher assistiu à cena aterrorizante. Viu seu menino levantar-se e se afastar com calma e, calmo, voltar com um alicate nas mãos. Viu quando ele começou arrancar as unhas do gatinho com a mesma volúpia com que lhe furara os olhos.
A mulher não teve mais dúvida: abominava completamente aquele ser. Não tinha nada a ver com aquilo. Retirou-se em silêncio, preocupada em como esconder tudo do homem. Sabe-se lá o que ele faria.
Passaram-se semanas e uma carcaça seca e dura de um gato estarrecido apareceu na coleção de Miguel. Foi nesse dia, dia em que descobriu o resto de um gato torturado, que o homem tomou uma decisão: levar Miguel para o hospital. Não podia negar: o filho estava doente.
O pai chorou, chorou, e chorou. E a mulher desesperou-se, debateu-se, bateu a cabeça, bateu pé, convocou a família, era inadmissível, uma maldade, considerar louco o próprio filho...
Continuou-se, por certo tempo, a interminável batalha entre entradas e saídas do hospital. Repetições. E uma dor impossível acompanhava Miguel como uma sombra sem corpo. Intraduzível. Ninguém via e, se alguém via, nada dizia, ninguém ousava saber sobre a coisa inominável que assombrava aquele menino. O demônio, só podia ser. O demônio em pessoa.
Pobres pais. Murmuravam cabisbaixos e fugidios. Apenas murmuravam.
O marido deixou de falar; a mulher olhava-o com um amor infinito, indizível, cruelmente não correspondido, ela pensava. Pedia clemência para o seu filho, afinal, era mãe. Repetia-se. E a batalha entre surdos e mudos perdurava.
E Miguel ia se apagando; mais mudo, mais sombra. Não ficava em lugar nenhum; ficava no meio do caminho, entre casa e hospital. Agora, já ninguém falava com ele e ele, se dirigia apenas às coisas inertes. E, agora, Miguel engolia também pedras.
Um par de vezes Miguel aproximou-se da mãe e pediu-lhe que o matasse; ela sorriu com piedade, passou-lhe a mão pela cabeça, disse que o amava e que ele ficaria bom.
Então, ele escapava desesperado e desaparecia por muitos dias.
Um dia, voltou resmungando e trancou-se no barraco. Semanas. Sem banho sem comida.
A mulher sentiu-se em paz. Enfim, Miguel estava seguro dentro do quarto. Ela lhe levava comida e água. Às vezes, ele aceitava, outras não; às vezes, ela levava também um pouco de conversa, roupa limpa, doces; e os olhos de Miguel cintilavam por instantes. Alguns instantes, mas ela não via.
O marido continuava dedicado à madeira; construía móveis, brinquedos e esculturas gigantes. Dias e dias silencioso e triste; pensativo, alisando a madeira. Um mudo.
A mulher ia até ele e falava muito, contava as notícias da vizinhança e da cidade, da família e do mundo, falava de tudo, fazia planos, construía mundos e fundos. Dizia que tudo estava se ajeitando; que Miguel, enfim, estava seguro, tranquilo em seu barraco de restos, direito dele, afinal. Afinal, seriam felizes. O homem ouvia e balançava a cabeça dizendo sim.
Miguel começou a se debruçar na janela do barraco; passava as noites inteiras debruçado na janela, observava o céu, contava estrelas e falava. Falava com as estrelas, contava histórias compridas. Parecia bem, parecia tranquilo. Distante e frio com as pessoas, mas sossegado. Poucas vezes deixava o quarto; e só saía à noite. Ele também vigiava a lua; acompanhava o movimento da bola luminosa durante toda a noite, virando a cabeça, subindo na janela. E, escapando por ela, acompanhava a lua atravessando o jardim, o quintal, o mundo; despedia-se da lua quando o sol se anunciava. E voltava para o barraco.
Então, ele fechava a janela, dobrava-se como um boneco dobrável sobre o leito; ou então brincava com sua coleção de restos de mortos.  Brincava horas. Não trancava a porta do barraco, mas ninguém se atrevia. A mulher deixava-lhe um prato de comida por dia e alguma água.
Miguel vivia à noite, com a lua e as estrelas.
A mulher estava tranquila; e, afinal, o que mais se poderia fazer? Já haviam tentado tudo. Miguel era irreal, impossível, incompreensível, impensável. E, ao mesmo tempo, havia muito trabalho à espera. A vida não podia esperar, era uma executiva importante de uma companhia importante. Não podia perder mais tempo.
Quando a noite chegava, Miguel levantava-se, abria a janela e voltava a observar o céu. E caminhava pela noite.
Inexplicavelmente, o marido, começou a trabalhar à noite na marcenaria; sentia-se muito bem. Não que dormisse durante o dia, pelo contrário, não ficava em casa, fugia para os arredores e trabalhava na terra. Obrigava-se à exaustão; às vezes, capinava o mesmo lugar diversas vezes e plantava o que lhe vinha à cabeça. Sentia-se bem quando sozinho com a terra. Trabalhando ao esgotamento. Dia e noite.
Algumas vezes, a mulher aparecia; bonita, cheirosa e sorridente. Trazia-lhe uma comida boa, um vinho, puxava conversa, ele respondia monossilabicamente e, vez ou outra, aceitava a comida; pedia que ela voltasse para casa, dizia que o lugar não lhe convinha, ela insistia, queria fazer-lhe companhia, ser companheira dele, ser mulher dele. Teimava e ele ficava confuso. Ela não desistia e, algumas vezes, deitavam-se ali mesmo, sobre a terra, entre árvores.
Ela ficava muito feliz, dizia que o amava e que eles eram felizes. Que jamais se separaria dele. Ele nada dizia. Ela ficava satisfeita e se sentia realizada. Então, ele voltava a revolver a terra e a serrar a madeira.
Uma tarde, o marido estava trabalhando com a enxada, sol a pino, preparando uma plantação de milho, quando se sentiu observado. Procurou. Não viu nada. Voltou ao trabalho, mas a sensação de presença continuou. Voltou a procurar e, depois de indizível angústia (quanto tempo?) descobriu Miguel de cócoras sobre um montículo de terra, entre as moitas de capim, a uns poucos metros. Quieto, imóvel e de olhos arregalados, ele observava cada movimento do homem.
O coração do homem disparou; primeiro de alegria, sentiu a esperança de um encontro, de companhia, de humanidade enfim, e sorriu. Cumprimentou-o, convidou para trabalhar junto, disse ‘que bom que você está aqui’.
Não houve resposta nem movimento.
Triste, mas com a pontada da esperança no peito, o homem voltou ao trabalho; a fé na redenção teimava em seu peito. O sol começou a descer e nenhuma palavra foi dita. Os primeiros pontos de luz prateada já pintavam o céu escuro quando o homem ouviu: ‘por que você se casou com ela?’.
O desespero explodiu o peito do homem. Desatinou. Quase perdeu o controle. Sentiu-se desnudo e desamparado. Observou a enxada nas mãos e pensou em atacar o filho. Conteve-se. Reviu o passado: era escuro, era triste, não havia escolha, não se lembrava do começo e, cheio de angústia, entendeu que ainda não chegara ao fim. Sentiu uma inexplicável piedade de Miguel.
Mas, sem palavras, continuou quieto e mudo. Paralisado.
Depois, quando a noite já cobria a terra por inteiro e os pontos de luz no céu eram incontestáveis, Miguel levantou-se e voltou ao barraco. Voltou à janela e à noite.
O marido veio depois, mais triste, mais magro, mais velho. Foi para o banho. Depois, sem dar ouvidos aos protestos da mulher, saiu para a marcenaria que ficava ao ar livre, debaixo do enorme jatobá que beirava o jardim interno da casa. Começou a serrar madeira sem nenhum objetivo em mente.
A esposa seguiu-o, obstinou-se e quis conversa; ofereceu jantar, quis notícias da plantação de milho, se fez bonita e dengosa. Ele ficou mais nervoso e mandou que ela desaparecesse. Teve ganas de serrá-la ao meio. Ela saiu magoada e ofendida.
Miguel observava da janela.
Esculturas, bancos, cadeiras, mesas e armários multiplicavam-se e ficavam espalhadas pelo quintal.
Miguel vivia com os olhos e a cabeça no céu. Tornara-se definitivamente sereno: uma alma pacífica e bonita como um negro céu de inverno completamente pontilhado de prata. Estava mais velho e mais magro; os cabelos, sujos e emaranhados, uma barba negra crescia desgrenhada. Passava os dias deitado em seu quarto navegando entre estrelas na imensidão escura.
O imperturbável rio da vida seguia seu caminho. E Miguel seguia quieto no quarto, organizando e limpando os restos que recolhia pelos caminhos enquanto acompanhava os astros.
Num começo de noite, depois de incontáveis noites, soou mais uma vez o indecifrável canto do invisível urutau. Naquele começo de noite, Miguel, de súbito, deu um salto. Havia anos, ele, em incontáveis começos de noites, ouvia atentamente o canto do pássaro. Ouviu: ‘ohhhh, ohhhh, ohh, oh... ’; ouviu: ‘ahhhh, ahhh, ahh, ah...’, e ainda ‘ouuuu,  ouuu, ouu, ou...’, e também: ‘ãããã, ããã, ãã, ã...’, e depois: ‘êêêêh, êêêh, êêh, êh...’, mas, naquele começo de noite, Miguel ouviu claramente: ‘vaiiii, vaiii, vaii, vai...’.
Não havia lua e as estrelas exibiam-se sem pudor.
Miguel levantou-se devagar e saiu do quarto. Avançou em direção ao homem que, abaixado sobre uma tábua, lixava a madeira no mesmo vai-e-vem; no mesmo ritmo do gesto sem fim.
O filho pegou um porrete que estava por ali e continuou caminhando devagar. O urutau continuava: ‘vaiiii, vaiii, vaii, vai... ’. Miguel estava tranquilo e o ar da noite aquecia seu corpo. Ele estava feliz.
Por trás, com um único golpe, acertou a cabeça do homem que desabou de bruços sobre a madeira; a cabeça se partiu num som seco e rápido. O homem tombado não se moveu mais.
O urutau calou-se.
Da cabeça do marido, o sangue jorrou sobre a terra e Miguel continuou mudo observando o sangue pintando o solo em manchas negras. O silêncio recobriu a terra e tudo lhe pareceu resolvido.
Miguel moveu-se com calma observando o redor: a noite estava magnífica. A brisa era um continuado abraço amoroso. Ele caminhou passo a passo até o quarto de ferramentas, trouxe um serrote e alguns sacos vazios que aguardavam a colheita do milho. Com bastante cuidado, de mansinho, silencioso, atento para não errar o corte, separou braços e pernas, repetindo os gestos de vai-e-vem, os mesmos movimentos que por toda a vida acompanhara eternamente.
Depois guardou, separadamente, com delicado gesto: pernas num saco, braços noutro. Examinou o tronco com minuciosa atenção e separou-o da cabeça com um corte preciso. Pôs o tronco num outro saco e, sempre com delicadeza, colocou a cabeça rachada sobre a tábua: viu os olhos arregalados na face escurecida pelo sangue coagulado. Olhou para a cabeça por algum tempo e perguntou-lhe novamente por que ele havia se casado com ela.
Em seguida, balançou a própria cabeça de modo aborrecido por, mais uma vez, não receber nenhuma resposta.
Então, pegou a enxada do marido e, ali mesmo, sob o imenso jatobá que beirava o jardim interno, começou a cavar a terra escura e fofa; era uma terra macia que o ajudou a abrir um grande buraco onde colocou, cuidadosamente, um sobre o outro, os três sacos que aguardavam a colheita do milho e que agora guardavam os braços, as pernas e o tronco do homem.
Cobriu, com tranquila gentileza, o buraco e calcou a terra. Buscou uma mesa e quatro belos bancos que o homem havia construído; depois buscou um armário. Fez um bonito arranjo de móveis sobre a terra que engolira o homem.
Voltou à tábua onde estava a cabeça e outra vez a observou. Repetiu a pergunta e outra vez balançou a própria cabeça desaprovando a falta de resposta. Miguel sentia-se vivo, forte e respeitável.
Entrou em casa, foi ao banheiro, pegou uma toalha, o sabonete, um pente e o perfume que a mulher gostava. Passou pela cozinha, pegou a bandeja mais bonita e, na área de serviço, encheu um balde com água.
Começou a assobiar como o urutau: ‘vaiiii, vaiii, vaii, vai’. Miguel estava feliz.
Aproximou-se da cabeça do homem observando-a com a mesma curiosidade e dedicação com que observava a noite. Depois, molhando a toalha na água do balde, limpou a face e lavou os cabelos. Em seguida, os penteou e perfumou. Admirou; e gostou muito do próprio trabalho.
Então, colocou a cabeça sobre a bandeja e sussurrou-lhe que esperasse um pouco, precisava deixar tudo em ordem para não aborrecer a mulher.
Arrumou o lugar limpando a madeira suja de sangue, colocando ferramentas de volta nas prateleiras, varrendo o terreiro, recolhendo o lixo. Tão caprichoso quanto o homem, Miguel pensou.
Tudo ficou perfeitamente limpo e arrumado. Sussurrou para a cabeça sobre a bandeja: ‘ela vai gostar’.
Então, segurando a bandeja com elegância, caminhou e entrou em casa. Foi até o quarto da mulher e ela estava deitada, dormindo, linda como sempre, tranquila entre seus lençóis de seda.
Ele a admirou por alguns instantes e a chamou pela primeira vez: ‘ôhhhh ôhhh mãe!’. Ao primeiro chamado, ‘ôhhh ôhhh mãe’, a mulher saltou e sentou-se como um boneco de mola.
Miguel estava de pé, ao lado da cama, oferecendo-lhe a bandeja. Ele estava sorrindo como ela nunca o vira sorrir.
Ele disse: ‘É para você’.



Magda Maria Campos Pinto - quasesertao@gmail.com 


Urutau olho



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