quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

ENSAIO DO HORROR



“O bem de um, de alguns, é travestido de bem comum, e o mal aparece como projeto político. Em tempos de irresponsabilidade no poder, que transforma tudo em coisa, os homens, espoliados do espírito, sobrevivem dedicados ao terror. Em dias em que se confunde o político/jurídico com a livre circulação das mercadorias, o povo é transfigurado em público. Público cativo: domesticado, bem treinado e narcotizado. Onde havia pensamento, agora há automatismo”.


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Ao longo de 2017 e 2018 mantivemos encontros de estudos na Casa Piauí 868, como vocês já sabem. Agora, o novo ano exige outras tarefas; faremos novos trabalhos, outros formatos, outros objetivos. Esse blog fará parte dessa etapa. Aguardem.  O motor dos encontros dos anos anteriores foi dialogar sobre a escrita literária e seus desdobramentos, enquanto se produzia o livro de contos ‘INCONTÁVEIS’. É um livro tão difícil e sombrio como os tempos atuais. E é um livro necessário, foi o que concluímos. Ele exigiu o prefácio que publicamos hoje. E em seguida, na medida dessa página, publicaremos os contos.



ENSAIO DO HORROR

“Quem serei eu para as gerações vindouras, quando depois da babel das línguas se premiar o silêncio?”
(Czeslaw Milosz)

Há alguns anos eu percebo que a morte me ronda.
Repito: há alguns anos. Quero dizer que a experiência do tempo mudou: aconteceu uma volatização e o império do imediato.
Repito: eu percebo. Ou seja, tenho consciência de. Tenho consciência de que existe o eu, o meu, e de que existe o mundo, o não eu. Em tempos de tempo volátil, eu experimento uma progressiva dicotomia entre o tempo do eu – crescente desejo de vagar - e o frenético tempo do mundo. Vejo um mundo que se precipita sem freios para um mesmo termo.
Repito: a morte. Digo: fim da vida.
Repito: ronda-me. Significa que a morte me rodeia e me ocorre. Noutras palavras, que flagro a morte camuflada na hiperaceleração do mundo, pois na vida sem tempo, a morte resta disfarçada, ultrajada ou ignorada. Significa também que o meu ‘eu’ pensa sobre a morte. E quando pensa, tanto se espanta quanto se escandaliza.
Ao ‘eu’, é necessário adscrever as propriedades de consciência e memória. E, portanto, atribuir responsabilidade.
Em minha responsabilidade, eu penso. Reconheço, entre outras coisas, a leviana vulgarização d’ ‘A banalidade do mal’ e me junto à Hanna Arendt, pois aqui e agora, na depreciação do tempo, estabeleceram-se condições para a institucionalização do mal.
O bem de um, de alguns, é travestido de bem comum, e o mal aparece como projeto político. Em tempos de irresponsabilidade no poder, que transforma tudo em coisa, os homens, espoliados do espírito, sobrevivem dedicados ao terror. Em dias em que se confunde o político/jurídico com a livre circulação das mercadorias, o povo é transfigurado em público. Público cativo: domesticado, bem treinado e narcotizado. Onde havia pensamento, agora há automatismo.
Sinto saudades das condições de diálogo e, então, constato que já não se admira a simpatia, nem se reconhece a pré-linguagem e, por isso, concluo que não existe chance para a amizade. Hoje existem seguidores, competidores e consumidores.
Os signos já não significam, só indicam direções e prescrições. Nada se sabe do ‘a significar’, tudo deve ser estritamente útil, necessário e calculado. Não se suportam frustrações nem se toleram fracassos; e dores, se houverem, serão sempre enfermidades. Tudo aquilo que não se encaixa, nem se reproduz, é considerado lixo. Produz-se muito lixo porque não se admitem restos. O indizível, o irreproduzível e incalculável não tem inscrição.
Auschwitz! Os campos foram esterilizados e o acontecimento foi transformado em monumento, tese ou produto. Certezas e acordos se acumulam. Tudo fica estabelecido em sentenças padronizadas que pretendem apagar lembranças intraduzíveis. Banhados nas águas do Lete, os campos inundaram as praças, subiram morros, cruzaram mares e atravessaram fronteiras.
Desmemoriado, o homem corre, sem descanso e sem sonho, para lugar nenhum. Para dormir, ele toma um remédio e nenhum devaneio escapa da mais completa elucidação. Todo pesar é despropositado, e pode ser rapidamente dissolvido por uma substância nova.
E assim, sem dúvidas e sobrecarregado de certezas, o homem de nossos dias sobrevive no imediato. Sobrevive sem motivos para pausas nem angústias. Ele tem urgência e não tem linha de fuga. Todos estão aprisionados no mesmo centro de significância, sem subjetivação, sem lacunas, nem tropeços.
Desfez-se o humano que se fizera no desafio da liberdade. Do diálogo.
E daqui, eu escrevo.
Escrevo do tédio e da náusea na mesmice monotonal do ditado; da sociabilidade regulada pela competição, que faz da morte uma mercadoria. Escrevo a ausência do ‘sem significado’, insisto no escândalo da morte sem sentido.
Escrevo com respeito aos encurralados pelas demandas e fadados ao mesmo futuro; dos narcotizados num apático estado de ânimo, espoliados do direito à dor, ao ócio, ao nada e à morte.
Escrevo dos lapsos da vida prescrita, onde a morte retorna encarnando o direito de matar.  A vida decretada inclui o direito de matar.
Reclamo o evento ‘resto’. Resisto à simbolização absoluta, recusando o simulacro de uma vida decifrada. Reivindico o descentramento e o indizível; proclamo a opacidade funda que me funda. Não me identifico, nem me confesso.
O resto volta. Escapa das classificações, solapa a capacidade do dizer e anota o inenarrável.   
Volta.
O resto revela que a verdadeira testemunha morreu ou se calou. O resto é o canto dos que não sobrevivem e que sustenta a pergunta: “É isto o homem?”.
Não sei.
Só sei que: “Vida y muerte le han faltado a mi vida. De esa indigencia, mi laborioso amor por estas minucias”*.

Magda Maria Campos Pinto - quasesertao@gmail.com

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       * Discusión, Jorge Luis Borges, Ediciones Neperus, Buenos Aires, 1932.

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