domingo, 13 de janeiro de 2019

O HOMEM E OS LIVROS: por que criar obstáculos ao acesso ao livro?



 Em meados de dezembro/2018 fiscais da prefeitura de Belo Horizonte apreenderam cerca de 2000 livros do ex-morador de rua Odilon Tavares, na esquina de Rua Grão Mogol com Avenida do Contorno. Esse fato foi bem divulgado (após denúncias, inclusive a nossa) em diversos meios da imprensa, com fotografias, entrevistas e tudo mais. Mais? Mais nada. Ficou por isso mesmo, foi apenas mais uma notícia para o dia, ninguém ‘oficial ou institucionalmente’ tomou alguma providência efetiva e coerente. A princípio apareceram pessoas da comunidade do redor oferecendo-se para ajudar (um advogado apresentou-se voluntariamente, esteve em algum órgão da prefeitura tratando do assunto e foi interlocutor por algumas semanas), transeuntes se manifestaram e representantes da prefeitura ofereceram ao Odilon um ‘Box’ em shoppings populares, argumentando a lei municipal que regulamenta a atividade dos camelôs. 


Acontece que a situação está estampando exemplarmente o imbróglio da ilegalidade, ignorância e incompetência do poder público. Ninguém esclarece melhor a circunstância que o próprio Odilon, com impressionante discernimento (“Preconceituosos com o morador de rua e com os livros”, “por que apreender livro?” “por que livro?”), conhecimento das implicações legais (“existe uma lei que proíbe rasgar livro”; “o poder executivo não pode apreender bens, esse ato é da justiça, os livros são propriedade minha, e não fui notificado”; “eu sou semianalfabeto, não sou burro”) e, principalmente, com uma clara visão de mundo, uma atitude existencial precisa e reflexiva. Odilon Tavares é um homem a ser ouvido.
Vindo do interior do estado de Minas Gerais (nasceu em Cristiano Otoni), Odilon vive em BH há cerca de vinte anos. Foi morador de rua e catador de recicláveis até descobrir livros nos lixos. Passou a recolhê-los e vendê-los nas esquinas da cidade, a preço simbólico, como ele mesmo diz. E a partir daí as coisas mudaram. Ele foi acolhido pela comunidade que, feliz com o encontro de livros pelo caminho, passou a comprar e a doar. As doações e o recolhimento dos catadores nos lixos formaram - e sustentam - um significativo acervo. Pela manhã ele espalha os livros na calçada, à noite os recolhe, envolve num plástico e catadores de papelão tomam conta. Na manhã seguinte, recomeça o trabalho. Seu negócio tirou-o da rua, pois conseguiu seu barraco, em suas próprias palavras. Mais que isso, trouxe-lhe um lugar no mundo, em muitos mundos. Passou a ler e a amar os livros, a sentir-se integrado e acolhido na comunidade (“a população me aceita, a lei não”). 

Hoje, Odilon pensa que o livro é o principal instrumento para que as pessoas se tornem sujeitos respeitados e capazes de encontrar o próprio rumo. Seu sonho é ter um micro-ônibus cheio com os livros recolhidos e doados para vendê-los a cinco reais nas periferias da cidade, onde, diz ele, há a verdadeira carência do tesouro. E é um tesouro imenso; eu mesma já garimpei pérolas no acervo do Odilon e sentia (quero continuar sentindo) grande prazer ao cruzar com sua livraria a céu aberto a caminho do trabalho. Estamos resistindo junto com ele: as pessoas estão doando e ele continua tentando fazer seu trabalho. Mas, sob a ameaça de nova apreensão a qualquer momento (é importante que se diga: existem outros na cidade que estão vivendo a mesma experiência conforme já denunciamos nas redes sociais). A situação continua nebulosa. Ninguém sabe onde estão (e se ainda existem) seus dois mil livros apreendidos; ninguém sabe quem denunciou e por quê; ninguém explica direito o motivo da apreensão; ninguém sabe por que não pode vender livros apanhados nos lixos ou doados nas esquinas da cidade. A  gente desconfia... Mas, principalmente, a gente vai lutar pelo acesso aos livros, pelo direito do Odilon, e de quem mais quiser, de escolher livremente seu trabalho, pela soberania popular, pelo respeito à dignidade do sujeito. Com as palavras do Odilon “a gente não quer é virar bandido”.


Registro da rua Mutanabi, na região central de Bagdá, feito em outubro de 2010.  Endereço tem cafés e comércio de livros de segunda mão (Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP)
(Registro da rua Mutanabi, na região central de Bagdá, feito em outubro de 2010. Endereço tem cafés e comércio de livros de segunda mão (Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP)
Resta lembrar que nas grandes cidades do mundo esse tipo de atividade (que tem que ser entendida como atividade cultural) é não só permitida como incentivada. Buenos Aires, Montevidéu, Santiago e Lisboa (para citar as que frequentei) têm grandes espaços nas ruas onde  vendedores de livros usados, fotografias antigas e outros objetos de arte são verdadeiros pontos turísticos. Eu adquiri coisas incríveis nesses lugares. Nossa pesquisa também mostrou que tais pontos podem ser encontrados em Paris, Londres, Barcelona e etc. Em Belo Horizonte, existe uma 'Lei de Postura' que veta que 'qualquer coisa' veja vendida na rua antes de ser 'regulamentada'. Nós queremos obedecer a lei, mas queremos que ela nos seja esclarecida, que sejamos ouvidos e que a lei seja em defesa do bem comum. Também entendemos que as leis devam ser modificadas acompanhando a necessidade atualizada e se aperfeiçoando. Vamos continuar com esse empenho. Aguardem os próximos capítulos.

Em Taguatinga, por exemplo, pode: 
Do blog 'Calçadas Literárias': 

Desde as minhas andanças juvenis do tempo em que eu matava aula, havia um livro no meio do caminho. E antes mesmo de eu andar por ali, as calçadas do Teatro da Praça de Taguatinga já serviam de prateleiras literárias.

(Por Key Dias, escrita em 05.09.11.
Fotos: Gabryelle Gadêlha)


Oito anos depois do primeiro exemplar vendido, cerca de 300 pessoas passam todos os dias pelo sebo de rua mais antigo e tradicional de Taguatinga (DF). Ao lado do Complexo Cultural Teatro da Praça, onde está a Biblioteca Pública Machado de Assis, o baiano José Everaldo da Silva abastece todos os dias uma kombi com parte das centenas de livros usados que possui. Por lá tem de tudo, da filosofia de Nietzsche a apostilas para concursos, de livros cabalísticos a didáticos, bestsellers adolescentes, quadrinhos, Machado de Assis, Cecília Meireles, Garcia Márquez, entre outros.
 
sebo9

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