segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

QUER VER? ESCUTA.

(segundo conto do livro Incontáveis)
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QUER VER? ESCUTA.

Eu disse que queria calar-me para sempre. Foi o caos. Descarados, os dois gargalharam ao mesmo tempo e começaram a dizer coisas completamente incompreensíveis, falando uma língua inexistente, ou melhor, uma língua que eu não compreendia.
Para bem da verdade, pode ser que aquela língua existisse e eu simplesmente a desconhecesse; eles falavam com fluência, cientes da minha incompreensão, rindo de mim num tranquilo deboche. Era o cúmulo do abuso.
Mas talvez não, talvez não fosse assim, provavelmente era o meu íntimo debate feroz, minha irritante e permanente angústia, enquanto eles brincavam como crianças felizes e inocentes. Tagarelantes. Talvez fosse minha alma macia querendo mostrar-se e eu ainda querendo esconder-me. Provavelmente.
Você tem alma de palhaço, de andarilho, de atriz... Precisa arrumar um circo, eu ouvi, naquele mesmo instante, eu ouvi meu pai falando ao meu ouvido, quase um sussurro, dissimulando o inusitado conselho, gaguejando como quem trai um segredo ou, humildemente, confessa um pecado. E meu pai nunca foi homem de gagueiras, pelo contrário, era um grande narrador. Mas aquele conselho – ‘você tem alma de palhaço... ’ – eu bem me lembro, ele soprou aos tropeços.
E ouvi também, quando depois, muitos anos depois, sabendo que estava para morrer, preocupado não com a sua, mas com a minha morte, ou melhor, com a vida que se deveria viver sem ele, perguntou como eu iria manter minha ingenuidade pura – a que tínhamos ambos e de que tanto gostávamos e sustentávamos com discreto orgulho. Perguntou como eu guardaria o gosto de inventar modas, modas do mundo da lua, dizia ele; e me advertia de que o mundo não gosta de ingenuidades nem de luas; que, neste mundo, é perigoso disparate ter alma branda e, mais ainda, preocupava-se com a minha vida fora da vida, pois sabia que eu vivia também outra vida, outras, vida ávida do realmente importante e então...
E, assim, tudo ao contrário, naqueles dias em que ele estava para morrer, começou a passar-me orientações, consolo, estímulo, eu resistindo, tentando fazer com que ele se calasse: ‘sou eu que quero ajudar, sou eu quem tem de te consolar’.
E ele: ‘escuta, presta atenção, você precisa do palhaço, não tem jeito, você não pode ficar sozinha, escuta, procura o palhaço... ’.
 Eu, triste, perdida, pensando na ausência dele, tentando convencer-me de que tudo aquilo era delírio, palavra louca de quem já perdeu a razão, mas sem conseguir convencer-me nem por um segundo e, agora, estou aqui ouvindo meu pai murmurando: ‘procure sua gente, não desista, aqui você é pessoa estranha, você precisa do seu teatro’, ouço meu pai insistindo, sem poder declarar-se francamente, em alto e bom som, enquanto esses dois gozam da minha cara, às palhaçadas, e eu pensando que esses dois são crianças, minhas crianças, meu teatro, minhas modas, minhas invenções, e agora não...
Agora os dois estão calados, sérios, olhando-me pelo canto dos olhos através do espelho, e eu, eu entro na brincadeira, sorrio o sorriso velhaco que só meu pai sabia sorrir e reajo. Invento uma ira incontrolável e berro:
- Vão ou não vão me explicar essa falação estrambótica?
- Não.
Eu rio, começo a falar, olho para dentro e a lembrança não dói. Pelo contrário, lembro-me da primeira luz da manhã que lutava para atravessar os vidros da janela diante da cama em que estava presa havia semanas. Os vidros eram irregulares e, com eles, o sol nascente tecia tramas incríveis. Eu podia perceber os raios que conseguiam penetrar primeiro. Depois, vinham os segundos que, lutando com espessura da vidraça, penetravam mais fininhos e mudavam a cor do quarto; e, então, aos poucos, as cores entravam uma por uma, de mansinho, até que todos os raios, vencendo completamente os vidros da janela, explodissem o quarto em cores inimagináveis. Eu comemorava a vitória do sol e recebia no meu leito de hospital uma multidão de seres luminosos, sem corpo, que contavam histórias de universos distantes, de outras gentes e insuspeitados destinos.
Trazidas pela luz do sol, vidas extraordinárias visitavam-me. Certo dia chegou um rapazinho louro de ombros largos e pernas de aço, redondas como as rodas de uma bicicleta. Ele me carregou para o universo dele, onde todos tinham pernas redondas e viviam girando, girando, girando. Lá o sol era azul e diversas luas mudavam, a cada dia, a cor da noite.
Ouvi a música dos dias chuvosos quando a água, fustigando a janela, trazia-me outros universos; agora, os musicais infinitos. Ouvi todas as melodias que a chuva sabe compor quando encontra os vidros de uma janela; as raivosas ou simplesmente fortes, as melancólicas e as românticas, e ouvi também as eternas sinfonias que duravam uma noite inteira.
Lembrei-me ainda dos pequenos poetas que cantavam sempre, seres pequeninos, mínimos, quase invisíveis, que eu entrevia entre as folhas da árvore que se cercava da janela; os poetas chegavam no fim da tarde para esperarem comigo pelo meu pai.
E, então, revi os pequenos olhos do meu pai que, todo dia, final da tarde, chegava cansado sem querer mostrar cansaço; trazia sucos muito doces que eu não queria, não gostava e recusava terminantemente enquanto ele pedia perdão com aqueles irrequietos olhos negros. Eu não sabia por que ele pedia perdão, mas não perdoava.
E ele pediu perdão todos os dias, sem descanso nem desânimo, até que eu me sentisse poderosa e rainha, escrava somente da vida, convencida de que o amor dele era muito maior do que a minha dor, e de que ele era mais forte do que todos os gigantes de branco que vinham me espetar várias vezes ao dia.
E, então, quando eu voltei a me mostrar pessoa altiva e decente, respeitosa de si – dizia ele, ele voltou a sorrir das muitas maneiras que sabia, principalmente com os olhos, e começamos a conversar longamente, sempre com poucas palavras.
Ele pedia perdão porque eu estava sofrendo e ele não podia fazer nada; porque eu ainda não compreendia que eu era a dor de outra vida e o culpava; eu era a minha vida e ele não podia mudar isso. Ele se sentia culpado diante de uma vida, a minha, que ainda acreditava – e queria continuar acreditando – no poder dele, poder que ele sabia nenhum diante do mistério, mistério da vida que ele amava tanto e que o submetia fazendo-me sofrer.
Mas tudo isso ele só me contou depois, muito tempo depois, quando eu já havia me reerguido, dominado a dor e aprendido a comportar-me com a dignidade e a coragem que uma boa vida pede. Dizia ele.
Certa tarde, ele contou – falava com autoridade, algumas palavras apenas, falava como se estivesse dizendo outra coisa; a história, a essência propriamente dita, ele só contava com os olhos, ou seja, a gente tinha que encontrar as palavras nos olhos dele – mas, dizia eu, certa tarde ele contou que mulheres conversam com todos os seres do universo, inclusive com os que não existem, pois são as mulheres que criam o que não existe.
Aos homens, cabe esperar. Eles nem sabem querer o que não existe, só as mulheres são capazes desse absurdo; só as mulheres querem e inventam as coisas inexistentes. Dizia-me o meu pai, que as verdades são as mais lindas invenções das mulheres.
Durante aqueles meses eternos, todo dia, toda tarde, depois do trabalho, ele chegava com o suco melado e mais um pedaço da história dos homens. Se eu aceitasse o suco, ele continuava a história.
Aos homens, restava acreditar no que as mulheres inventam; às vezes, é difícil acreditar nas invenções femininas, ele me repetia com um permanente e enigmático sorriso.
E bem humorado e, ao mesmo tempo, um tanto debochado, emendava: ‘para mulheres, uma coisa pode ser muitas coisas. Multiplicação impossível para homens... ’
Fiquei tão impressionada com a sabedoria do meu pai que, mesmo depois de saber que ele inventava tudo aquilo para me consolar, para que eu pudesse ficar imobilizada naquela cama sem enlouquecer, ainda assim, até hoje, muitas vezes, consolando-me, eu invento universos inteiros. Absurdidades bárbaras. E acreditando naquilo que eu invento, eu me salvo e, então, a boa vida digna me resgata. Aliás, é melhor confessar logo que eu só acredito naquilo que eu mesma invento.
Muito tempo depois, encontrei bibliotecas inteiras, montanhas de livros que tentavam desvendar os caminhos das mulheres. Nessas horas, eu sorrio e revivo o segredo inventado pelo meu pai: não existem caminhos traçados, a gente tem que esperar uma mulher inventar, arriscar, trilhar; depois que ela inventa e trilha, todo mundo acredita e vive de suas criações. Se não inventar o que ainda não existe, não é mulher... Dizia o meu pai.
Eu bem me lembro: eu me senti pessoa importante com a verdade que meu pai inventou para mim. E sigo minha vida inventando, inventando, inventando...
Então, nesse mesmo momento, ouvi o absoluto silêncio que reinava no carro e vi, com surpresa, que Théo chorava. Ao mesmo tempo, Luiz, calmo e senhor de si, dirigia com cuidado, atento a tudo que eu falava.
Tudo ao contrário, eu pensei. Théo aflito, Luiz tranquilo. Beijei carinhosamente a nuca de Théo, coisa que o perturbava, mas de que gostava muito e que, apesar de tanto gosto, raramente permitia. Sim, eu o conhecia bem. Meu Théo. E ele deixou que lágrimas corressem soltas pelo rosto. Continuei beijando-lhe a nuca e, baixinho, perguntei pela próxima pergunta. Ele não se moveu. Luiz, agora risonho, meu Luiz inquieto, decidiu arriscar-se:
- Continua, quando seu pai morreu, você quis calar-se para sempre...
Théo estremeceu, mas se conteve. Respirei fundo e decidi que eu saltaria. Eu queria calar-me, mas talvez fosse hora de falar. De arriscar-me. Por isso, senti um calor doce no peito e meu corpo cresceu. Murmurei (era quase inaudível):
- Eu posso dizer que a página foi virada. Posso. Agora eu sei que toda gente mente. São seres infames, indignos da vida, seres de máquina. Posso dizer que as crianças escaparam das cavernas e aprenderam outras línguas. Novos dizeres. Agora estão livres. Digo isso e me calo quanto ao resto; fim.
Luiz se exaltou:
- É justo? Fechar o livro e pronto? Injusto...
Théo ainda chorava.
Continuei mussitando tomando coragem, mas decidida a falar. Ao mesmo tempo, enfrentava a imensa dificuldade de romper o hábito. Eu não queria repetir histórias, queria dizer apenas verdades. Abandonar rotinas é de fato morrer; é nascer sozinho, inventar um corpo novo.
Enquanto eu murmurava para tomar fôlego, para obrigar-me a dizer o que eu queria dizer, o novo, a novidade, o inaudito, tudo voltou a doer; o corpo inteiro e cada órgão, e, mais, cada única célula.
Eu voltara a ser dor, mas devia falar.
Então me lembrei de que eu era uma mulher, de que sabia inventar verdades e, nesse momento, cheia de coragem, despedi-me, mais uma vez, das velhas ordens.
Saltei, sem medo, para dentro do meu corpo novo. Novo desconhecido a ser desvendado e contado.
A queda não foi veloz nem violenta, pelo contrário, adentrando o meu corpo, pairando como pluma na brisa, eu podia ler ou ouvir - difícil distinguir se eu, verdadeiramente, lia ou ouvia - as inscrições que em mim mesma me revelavam.
- Naqueles dias o meu pai não podia mais levantar-se da cama. Na verdade, havia dois anos que ele vivia a vida dia a dia, com grande esforço, mal conseguindo respirar. Os pulmões haviam-se rendido. Mas ele não, ele não se rendia. Ainda é difícil falar nisso porque eu nunca pude compreender isso: que ele não se rendesse. Que quisesse viver quando já não se podia viver. Não havia nenhum ar.
A sua vida fora a mais ativa que jamais houvera; é impossível descobrir coisa que meu pai não tivesse feito ou que não estivesse pronto para tentar. Meu pai experimentava tudo com franca alegria. Seu verbo era experimentar. E porque sofria de escandaloso amor pela vida, era absolutamente humilde diante dela; e, pela mesma razão, era absolutamente inflexível para com a arrogância dos homens.
Então, quando ele não podia mais mover-se sozinho e, ainda assim, queria continuar vivo, eu me perdi.
Ele ficava na cama, permanecia ali, muito tempo, dias, muito tempo, meses, muito tempo, horas, muito tempo, agora já há anos. Ficava sozinho consigo mesmo, ou, penso agora, sozinho com a vida em si. Ainda me espanto. Assombra-me.
Se alguém aparecesse (raramente alguém tinha tempo para aparecer), ele recomeçava a falar devagar, com esforço, sobre as coisas comuns da vida: o futebol, a falta de chuva, o excesso de chuva, a corrupção dos políticos... Normalmente. Pacientemente. E não posso explicar-me melhor, mas havia gratidão, digo, misericórdia para com os que encontravam tempo para visitá-lo e, por isso, com grande prazer, ele voltava aos assuntos do cotidiano.
Entretanto, de fato e verdade, ele ficava sozinho quase o tempo todo, calado, imóvel, com as mãos cruzadas sobre o peito e, fixando-as, começava a girar os polegares lentamente, um em torno do outro, focado naquele delicado carinho entre dedos, pensando, pensando, pensando...
De vez em quando, num outro gesto de piedade, com misterioso meio sorriso, ele contava uma história. Por exemplo, desfiava uma complexa trama para caçar discos voadores (nos quais não acreditava) ou de como criar um partido político que, baseado no campeonato de futebol, dirigiria o país com justiça e prosperidade. Ou de como melhorar a educação nas escolas transformando todas as disciplinas em jogos de baralho.
Eu respondia que queria conversar sério, falar sobre ele, ele mesmo, sobre sua vida que... Ele me interrompia, assumia a autoridade dizendo que não era moleque, que estava falando sério, que aquelas ideias não eram brincadeiras ou banalidades, nem inconsequências, eram puras ideias proféticas. E ditava-me com firmeza: “Quer ver? Escuta”.
Voltava a se calar. Assim, ele me silenciava.
Depois, de repente, retomava ideias mirabolantes e infalíveis para se ter vida boa, dizia ele, ou então, queria falar sobre o meu futuro. E recomeçavam as histórias, os contos, os casos. Todos sempre dizendo o mesmo: acreditar, benquerer, caminhar. E em seguida (só depois do abc: acreditar, benquerer e caminhar), não se preocupar. Jamais se preocupar. Sempre assim as histórias do meu pai.
Impossível saber se era piada. Ou melhor, difícil aceitar que não era piada. Não era.
Àquelas alturas, completamente arruinada, eu desmoronava porque não conseguia ajudá-lo. A derrocada do meu orgulho era infinita. Sentia-me ignorante e culpada diante dele: eu não conseguia alfabetizar-me apesar de todo o seu esforço. E sofrimento. Difícil saber quem sofria mais. Impossível dizer quem sofria mais.
Ele queria minha ajuda, é certo, acreditava em mim. Acatava qualquer sugestão, aceitava tratamentos e experiências, cumpria as prescrições, nunca falava de dores nem doenças, de lamentos ou lamentações. Mostrava-se dócil como um cordeiro. Mas firme como bom mestre.
Falava sobre a morte, falava sempre, falava seriamente e falava também com zombaria.
Eu me desesperava. Tentava inventar alguma história, urgentemente, alguma verdade que o consolasse, que falasse do amor que eu sentia, da admiração, da gratidão... Do medo que a morte dele tirasse a minha vida, era isso, mas isso eu não podia dizer a ele, não podia, eu era covarde, eu era eu. Eu tinha medo da vida sem ele. Eu me emudecia.
Ele sabia disso, hoje eu sei; daí, tanta piedade para comigo.
Era durão, não chorava, não aceitava desistências. Mas chorava por causa dos filhos – só pelos filhos -, só em determinadas ocasiões e, mais, chorava quando sozinho com a mãe dele, a minha avó, que me contava tudo em segredo, com sincera admiração pelo seu filho.
Ele chorava quando os filhos nasciam, quando as meninas menstruavam pela primeira vez, quando os homens tinham a primeira relação sexual e, chorava muito, se algum dos filhos desrespeitasse o bem público, pois, neste caso, ele se enchia de vergonha. Meu pai tinha um deus: o bem público.
Enfim, a verdade é que ele queria me consolar e me educar antes de morrer. Eu me angustiava. Eu inventava histórias: ele conhecia todas e ria de mim com delicada ironia. E sussurrava: ‘não se importe, vai conseguir...’
Tudo piorava a cada dia: cada hora menos ar, cada noite mais insônia.
Aconteceu a noite em que ele tentou levantar-se sozinho e caiu. Ele se jogou no chão. Com que intenção, meu Deus? Eu consegui – com que forças, Deus meu? – carregá-lo e colocá-lo de novo na cama e antes que eu terminasse de ajeitá-lo entre os lençois, ele sussurrou de maneira incontestável:
- Chega! Chega! Sai daqui, quero ficar aqui mesmo, sai...
Baixei a cabeça, ‘sim senhor’, e recuei. Eu não havia atravessado a porta  e ele soprou novamente:
- Desculpa, desculpa, não aconteceu nada, nenhum osso quebrado, viu? Os bons têm sorte...
Voltei. Lá estava o mesmo meio sorriso travesso ajeitando-se na posição de sempre: deitado de costas com as mãos cruzadas sobre o peito, girando os polegares.
E o dia seguinte foi um dia bom; brincou descrevendo a bela vista através da janela, outra piada, pois, depois da janela só havia o paredão do edifício vizinho. Uma montanha de concreto. Quando me percebeu fixando aquele paredão com perplexidade, riu mais largo e murmurou:
- Deve ser bonito depois do paredão... Não deve?
- Deve.
Ao longo do dia, elogiou a comida que eu preparei – que ele não comeu -, perguntou sobre o meu trabalho, contou (mais uma vez) dos tempos da juventude no exército, da disciplina, do medo da guerra. Fez novas previsões para o futuro do país.
Senti-me reconfortada e sonhei com uma noite tranquila. Contudo, chegou outra noite de pesadelos. Os piores: nenhum ar, nenhum sono, só a aflição e a angústia, minha dor e o seu olhar de compaixão por mim.
Ao amanhecer, fugi. Iam levá-lo para o hospital e eu não tinha forças para impedir. Ele gostaria que eu impedisse. Ele queria, eu sabia. E eu, covarde. Não posso perdoar-me ainda.
Os dias e as noites no hospital foram uma mistura esdrúxula de amor e medo. Ele sorria, dizia ‘obrigado’ a todos e a tudo, desculpava-se por... Por quê? E tudo era cansaço, o mais escandaloso e humilhante cansaço. Algumas vezes o mundo parecia estar acabando e, então, eu segurava a mão dele e o tempo parava.
De repente, ele encontrava um pouco de ar, murmurava ‘obrigado’ e soltava-se de minhas mãos. Depois, se justificava, soprando sílaba por sílaba: ‘obrigado, soltei sua mão porque está calor, viu?’. Parei de pensar. Parei de falar e, pela primeira vez, parei de sentir.
E chegou um dia, ou melhor, uma tarde, por volta das catorze horas, em que ele falou: ‘vou morrer hoje’, fingi não ouvir, ele fez piada: ‘estou bem treinado, passei muito tempo ensaiando a posição correta’.
Não ouvi.
Começou, pareceu-me, a simular uma confusão mental, por piada ou piedade, não sei, pois, de fato, as pessoas tornavam-se mais tranquilas e quietas enquanto ele ‘delirava’. ‘Pelo menos assim, delirando, não está sofrendo mais’: diziam e ele ouvia, ouvia, ouvia, e eu via. Ele se mostrava confuso, falando coisas absurdas – caçadas a discos voadores, o futebol e a ética dos povos, a boa educação e os jogos de baralho - e as pessoas calavam. O murmúrio desagradável desaparecia e alguma serenidade reinava.  Quando seu olhar exausto se encontrava com o meu, ele dava aquela piscadela de quem está fazendo cena. Um palhaço brincando com a morte? Protegendo-se num falso delírio? Protegendo-nos? Vingando-se ao se colocar fora de alcance? Nada disso? Tudo era simples e puro deliro?
 Então, num repente, ele arrancou os fios dos aparelhos e do oxigênio. As pessoas começaram a gemer, ninguém se moveu diante da autoridade do gesto. Num esforço gigantesco, sentou-se na cama e murmurou que ia descer, queria ficar de pé. Eu explodi: Não! E coloquei minha mão sobre seu peito impedindo-o. Ele olhou-me com... Que palavra? Sussurrou, tirando forças não posso dizer de onde, pois ele não tinha ar, não tinha pulso, não tinha músculo, não tinha nada, não tinha quê nem pra quê..., mas tinha força, tinha desejo: ‘com li-cen-ça, por fa-vor, não que-ro ser mal e-du-ca-do, eu vou fi-car de pé’.
Gritei: NÃO! E cachoeiras de lágrimas começaram a correr. Ele repetiu ‘es-tou di-zen-do que vou des-cer’, eu berrei novamente ‘não, não, não, por favor, eu vou lhe dar um remédio’, e empurrei-o de volta sobre os travesseiros. Fui cortada por duas flechas de fogo disparadas por dois olhos pequenos e tristes.
Não se derruba um titã impunemente e, agora, meu choro era para sempre inconsolável. Não era choro. Não era nada. Sabia-me simplesmente condenada à sobrevivência eterna. Não posso me perdoar e mereço o castigo: a sobrevivência eterna. O desespero da imortalidade.
Recebi outro olhar amoroso. Ele me perdoava e de rendia.
Desatinei para todo o sempre.
Digo melhor: literalmente ele se declarou vencido e orou: ‘Meu Deus, meu Deus, não está me ouvindo? Será possível? Não me ouve? Me leva...’.
Ele disse isso quando eu o derrubei sobre os travesseiros.
Eu e a sobrevivência: dor sem pausa.
Dei-lhe vários sedativos, ele engoliu tudo calma e cansadamente. As pessoas desapareceram, estávamos sozinhos. Explico: completamente sozinhos. Eu estava ali e ali estava ele. Outras pessoas também estavam ali. Mas nós todos estávamos completamente sozinhos. Escapou da minha boca ‘não aguento mais’, ele ouviu, disse ‘Deus te abençoe’; eu menti: ‘não me demoro’.
E fugi.
Escolhi uma corrida escadaria abaixo querendo que os andares nunca acabassem, esperando que fosse infinita a descida. Eles acabaram, eu cheguei ao chão. Eram seis horas da tarde, havia muita gente na rua, carros, uma passeata, um protesto, uma procissão, gritos, mendigos, trabalhadores, crianças, cães e buzinas. O ruído da vida.
Eu via todo esse barulho e só ouvia silêncio. Lembro-me bem: caminhei entre pessoas, vi rostos, pernas, cães e carros; vi faixas de protesto (por que sei que era protesto se não li nenhuma? Por que revejo aquelas letras com nitidez, a mesma nitidez daquela hora, e não sei – ainda não sei - que palavras estavam ali? E sei que era um protesto). Tudo acontecia como se alguém tivesse apertado a tecla ‘mudo’ do filme da vida. Caminhei por tempos, esperando sem esperança, sem ideia na cabeça, nenhum caminho a seguir, eu caminhava...
Cheguei à minha casa e me joguei sobre um sofá onde permaneci eternamente dobrada, encolhida, imóvel, pedra.
A vida continuava muda. Tudo sólido. E assim ficou, e assim eu fiquei.
Quando o telefone tocou trincando a solidez de tudo, não atendi. Levantei-me e fiz o caminho de volta para o hospital.
O mundo ainda era silêncio, mas não havia ninguém nas ruas. Nem cães nem carros. Tampouco protestos. Estava escuro e havia ar. Caminhei devagar, subi devagar as mesmas escadas e o encontrei morto. Beijei seu rosto, falei ‘eu te amo, até breve’.
Por que eu falei isso? Eu te amo, até breve. Verdade, eu disse: eu te amo, até breve. Eu sei por quê. Foi um pedido: ‘por favor, até breve’.
Depois disso, lembro-me de estar eternamente chorando e da certeza de que eu o havia matado. Lembro-me também de que continuo chorando com a certeza de que o matei.
Às vezes, ele me diz que não sei nem dirigir um carro, que nem gosto de dirigir um carro e que, portanto, é melhor desistir dessa uma vida besta e entrar logo para um circo.
Eu rio, mas depois ainda choro.
Ele ri do mesmo jeito, irônico e carinhoso ao mesmo tempo.  Diz que mulheres inventam coisas inúteis e fazem a vida ficar boa. Eu digo que ele está copiando a Cecília Meireles e ele responde que não foi apresentado a nenhuma Cecília. Conto que inventei homens imprescindíveis e minto que não me sinto culpada. Ele acha graça e debocha. Continua inventando piadas e eu tentando compreendê-las. Agora, não me dá mais conselhos nem orientações.
Eu sempre choro. E tenho certeza de que o matei.
Eu disse que queria calar-me.

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(TERCEIRO CONTO DO LIVRO 'INCONTÁVEIS') A PRIMEIRA VEZ Ele bate a coronha da arma na minha cabeça e fico momentan...