terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A PRIMEIRA VEZ

(TERCEIRO CONTO DO LIVRO 'INCONTÁVEIS')


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A PRIMEIRA VEZ


Ele bate a coronha da arma na minha cabeça e fico momentaneamente cego, mas, dessa vez, não perco a consciência. O mundo agora é um pano negro, negríssimo, rendilhado de estrelinhas como o céu de Diamantina em noite sem lua. Luzes piscando longe, muito longe.
Meu corpo também pisca, pisca distante de mim; milhares de gotas-espinhos escorrem de mim, penetram em mim, não sei, lágrimas evaporam do meu corpo inteiro, rios de suor e sangue me afogam, escorrem, cada gota uma dor e eu, eu me lembrando, Diamantina, Diamantina, nós dois felizes sob um céu estrelado...
Agora, aqui, sou o homem mau, muito mau e não me rendo. E a morte se anunciando, girando, rodando, me rondando... A morte.
Eu penso. Relação de palavras: deserto, decerto, incerto, discreto, decreto, correto, reto, teto, quieto! Inútil, vão, infinitamente vão. Tudo sem fim. Vida sem fim.
Não posso parar de pensar.
Lina, Lina, meu amor, Lina. Lina queria que eu saísse do exército. Insistiu. Teimou. Eu não quis. Eu gostava da corporação, eu queria ser general. Eu era honrado. Sou. Sou um homem honrado.
Lina debochava de mim.
Um terremoto inflama a massa sem forma que hoje sou eu. Rebelião em minhas entranhas ferventes. Minhas vísceras querem explodir.
Vomito.
O mau cheiro. Meu. Descobri que sou um mau cheiro. Há quanto tempo? Dias, semanas, horas infinitas. De vômito, urina, merda e sangue. Eu.
Continuo pensando: torturado. Um prisioneiro torturado. Eu.
Relembro amigos. Vivíamos juntos, bem unidos. De repente, subitamente, estou rodeado de inimigos. Há uma guerra de não sei de quem, não sei onde, nem sei por quê. Ninguém sabe ao certo. Há uma guerra, e isso é tudo.
Devo manter-me atento. Acordado, pensando e alerta.
Segui meu capitão. Só isso. Não sei o que aconteceu com o meu capitão. O nosso regimento foi surpreendido. Houve mortes. Não sei quantas, nem quantos foram capturados. Não sei nada.
Tenho de vigiar.
Entre os pontos de brilho nesse buraco sombrio, revejo o amor de Lina e me debruço sobre o corpo macio. Sinto o cálido perfume da mulher. Não posso esquecer-me: Lina, Lina, Lina.
Abrem a porta e os homens encapuzados voltam. Sempre os mesmos: grandes, fortes, calados. Não falam. O treinamento, eu sei. Bem sei. O trabalho de tortura é feito em silêncio; só o outro, o homem calmo e limpo, sem capuz, sempre tranquilo, fala. Interroga! Firme, ele me encara, olhos nos olhos, às vezes, ele até sorri. Simples estratégia de convencimento. Um burocrata, alguém da Inteligência. Conheço direitinho o protocolo.
Mas, dessa vez, os encapuzados estão sozinhos. ‘Desprezíveis’, penso, “infames”, penso. Idiota esse meu pensamento. Desprezível sou eu. Sou um amontoado de merda pensante.
Chutam rins, costelas, socam a cara, quebram o nariz. Mais vômito e eu, o intratável, o fedorento, o asqueroso, continua pensando: ‘sórdidos!’. O ilustrado sonhador honrado pensa e apanha. Pensa. E apanha.
Eu sou o bandido, o patife, o cruel. Fico muito mais forte pensando assim, recomendava o treinamento. Para aguentar, para não quebrar.
Eles param de me bater e vão embora sem dizer palavra.
Foi só aquecimento, talvez estejam entediados, não podem abrir a boca, só podem me vigiar; tomar conta de um saco de merda.  Obrigados a apavorar um monte de bosta.
Não. Não. Não. Preciso manter-me firme. Sou forte. Vou reagir. Eles devem ter medo de mim. Sou o inquebrável.
Quero chorar, claro que eu tenho medo, horror, terror, pânico, mas não abro a boca. Que tenham mais medo que eu! É assim. Deve ser assim.
Quero rir. Isso, eu não devo.
Rastejamentos na lama, afogamentos, corridas sem fim, fome, frio, as flexões. A-s-fle-x-ssõ-es! Aurora, crepúsculo. Meio-dia, meia-noite. Meio dia, meia noite, noite e meia, dia e meio. O tempo todo. No exército é assim.
Aqui não estou no exército. Não estou, mas não percebo a diferença. Devo ser idiota. Não, não, não. Não devo pensar assim.
Eu queria ser irônico, o mais irônico, eu queria ser como Lina. Lina é impiedosa. Desalmada. Lembrança boa. Não posso me esquecer.
Passos, correntes, chaves, porta aberta. Estremeço, arrepio, suo. Fico imóvel. Imóvel? Quase rio: estou amarrado.
Vejo o homem da Inteligência. Elegante e tranquilo; como sempre. Perfumado, calmo, dá dois passos para um lado, dois passos para o outro. Sem pressa. Cercado por quatro encapuzados. Segurança do homem da Inteligência. Quatro seguranças.
- Nomes, nomes e codinomes. E você fica livre. Dou minha palavra, acaba tudo e você volta para casa.
Voz tranquila, bem pausada, quase doce. Firmeza sem arrogância. Ele sabe o que faz, foi bem preparado, assim como eu.
- No-mes!
Gemo. Um descontrolado me acerta o nariz quebrado. Mais sangue. Desmorono sobre o monte de merda. De vômito. De nada.
Pancadas eu aguento bem, meu medo é outro.
O homem da Inteligência fica bondoso. Manda que me levantem, oferece uma cadeira, um copo d’água, limpam o sangue da minha cara.
Eu o vejo melhor. Jovem, bonito, expressão amigável, quase piedosa: que eu pense que ele pode me salvar; que eu pense que ele quer me salvar, que isso o desagrada profundamente.
Pede que eu o olhe na cara, mas mantenho a cabeça baixa; ele insiste uma vez, mas não me movo.
Vai piorar. Uma onda de pânico gelado começa na sola dos meus pés e sobe. Vai piorar. Meus olhos procuram os alicates.
Erro fatal. Eles veem.
Um simples olhar do homem calmo e um mascarado apanha o alicate. Outros dois me seguram. Grito, choro, berro, suplico, esperneio. Ele prende a minha mão, eu gemo, ele arranca a unha, a ponta do dedo, outra unha, mais sangue, esguichos, jorros, gemidos, eu grito, eu choro, eu desespero.
- João, João, João... João Queiróz, o Caqui.
O homem tranquilo sorri discretamente e solta:
- Ahh!
Um silêncio.
Gemo. As unhas. Minhas unhas.
- Onde está o Caqui?
- Não sei.
Choramingo. Não sei mesmo. Nem ideia. João Caqui é ninguém, como eu. João é meu camarada. Vivíamos juntos e nos apoiávamos, dividíamos o pão nos dias a pão sem água. Dividíamos a água nos dias de água sem pão. O que terá acontecido com ele?
- Fale sobre o João...
Nada a dizer.
Outro movimento de olhos da Inteligência: hora dos afogamentos.
Eu aguento; têm cuidado, pois eu posso afogar-me de propósito e não querem que eu morra.
Não quero me afogar, eu não quero morrer.
Retiram-me da água e me jogam no chão. Escarram em mim.
Vão embora.
E, então, uma calda amarga começa a afogar-me. Tudo fica apertado, muito apertado, como se me dobrassem como um papel usado. O monumento de bronze – um dia, imaginei-me bronze – torna-se uma folha de papelão. E eu ainda penso, quero ironizar: ‘talvez eu vá para a reciclagem’. Teimosa tentativa em minha agonia: não aprendi a ser irônico. Rilke era irônico; Lina quem disse.
 Você nunca foi bronze’, ela sussurra pertinho de mim, ri o riso que diz ‘te amo’, ouço um berro: ‘palhaço, idiota, burro’. Lina é dura, impassível, implacável, um doce! Meu Deus, Lina, meu amor, meu amor! Deus? Lina não gosta que eu fale em Deus, consegue não falar em Deus. Lina não é deste mundo. Estou morrendo, Lina, morrendo! Ficando louco. Zonzo, sozinho, tonto, tombo, foi o tombo do navio, marinheiro só, ou foi o balanço do mar, marinheiro só, quem te ensinou a nadar, Lina, Lina, mas eu não sou daqui, marinheiro só, quem te ensinou a nadar, quem te ensinou a nadar... Lina, eu te amo.
Acordo. Gemo. Não me querem morto. Não querem. Eu não quero morrer. Choro. Estou sozinho. Tudo é absurdo. Uma zombaria.  O ingênuo pensante sobrevive; ex bem pensante, atual traidor, hipócrita, ninguém. Eu. Eu. Eu devia morrer.
Lina censura.
- ‘Asno, pare com isso, imbecil, não pense’.
Lina me consola. Não sei. Enlouqueci. É possível.  Preciso do amor de Lina. Do corpo de Lina. Preciso das boas lembranças. De memórias felizes.
Parei de sentir, estou calmo e não sinto dor. Pareço uma... Não sei. Mas é uma. Uma palavra, muitas palavras.
Ficou tudo claro. Sou um punhado de palavras. Elas estão escorrendo, as palavras escoam. Eu as vejo. Vejo a palavra rio, rio, rio, sapo cururu na beira do rio, quando sapo grita, ó maninha, diz que está com frio...
As palavras estão dançando. Não vejo Lina.
O mundo está apagando calmamente, a mente, alma, crente, ente, quente...  Águas mornas, palavras nadam, são amarelas, folhas secas molhadas pelo sereno mentiroso da madrugada. Eu sou também isso.
Lina gargalha, faz piada chula, fico envergonhado. Lina debochada, imoral, bandida, eu gosto, é de verdade, é assim que se diz ‘é de verdade’. Nada sei da verdade, sou um prisioneiro, fuzileiro, cativeiro... Guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zague...
Lina? Eu quero morrer.
O torturado é um sujeito irritante, obcecado, obstinado, cabeção, durão... Capelinha de melão, é de São João, é de cravo, é de rosa, é de manjericão... Doces memórias para não quebrar.
Quebrei.
Entreguei o João Caqui. Meu amigo que ficava todo vermelho. João ficava vermelho, vermelhinho. Era engraçado.
Conseguiram me quebrar.
Sou uma enorme falta de espaço, uma asfixia e um punhado de pensamentos estúpidos. Estou morrendo. Vou morrer agora. Quero morrer. Preciso morrer imediatamente.
A dor é um movimento silente. Essa minha apatia é aparente. Eu rimo. Nos extremos, em todos os extremos, estão as rimas. Lina disse. Eu lembro: Lina poeta, profeta, abjeta. Lina linda. Nos extremos, as rimas. Nascer é morrer. Dizia Lina. Não vejo o rosto de Lina. Não me lembro de Lina.
As palavras vão embora. O esforço acaba quando se morre, o ser é um esforço infinito de perseverança em seu ser, diz Spinosa, a rosa, arrasa o meu projeto de vida, querida, estrela do meu caminho...
Existe ar puro e cor violeta. Existe luz. Sem chamas, luminosidade suave, constante, parece jorro d’água, mansa e perene. Mas é luz. E é quente. Parece o amor que eu sinto. É o luar quente das caminhadas noturnas com Lina nas folgas do exército. Lina gostava da lua. Gostava? Não me lembro. Porque Lina é boa comigo?
Acordo.
Vivo e lúcido. Cuidaram de mim. Um colchão limpo. Estou vestido, as mãos enfaixadas, um cobertor. Não sinto dor. O quarto está aquecido. Há uma pequena lâmpada acesa. Tudo quieto, sossegado.
Não sei o que aconteceu.
Não sinto fome nem frio. Estou quase contente. Lina não gosta de vento. Está tudo bem. Vou viver. Quero continuar vivo.
O tempo não passa. Nada acontece. Está tudo bem.
A porta range. Voltaram. Meu coração ainda galopa. Estou bem vivo.
- “Não encontramos nenhum João”, diz pausadamente o mesmo homem bem educado.
Sinto uma esperança, tomara o João tenha morrido, penso. Uma indecência, eu sei, mas penso e desejo profundamente. Uma expectativa de fim. Tomara o João tenha morrido. Não tenha sofrido. Em mim, a velha teimosia. Tomara, tomara, eu rezo.
- Fale sobre o João...
Ele não perde a paciência e eu não tenho o que dizer. Estou calmo. Que o João descanse em paz!
Choques elétricos doem muito, estupros também, muito, muitos, gritos, ritos, mitos, espíritos, críticos, não, não, quero morrer, não cai não, não cai não, cai aqui, caqui, caqui... João, João balalão, senhor capitão, espada na cinta...
E a chama de um isqueiro adentra minhas pupilas. É o céu de Diamantina.
Acordo pendurado pelos braços e pernas. Nu. Sou um saco de treinamento de boxe para recrutas.
Não dói, ainda penso. Pensar é pura agonia, é doença. Preciso morrer. É uma doença.
 Sei como é. Socávamos colegas no treinamento. É difícil socar colegas. Só quero morrer. Não aprendi a morrer.
Cansaram.
Soltam-me e me jogam num canto frio, queda, chão, deu uma queda, foi ao chão, Terezinha de Jesus deu uma queda... como fiapo de algodão voando numa brisa adocicada, acudiram três cavalheiros, minha felicidade brilha pontilhada dentro da flecha de sol que entra pelo pequeno furo na janela bem fechada, fenda na cegueira de meus olhos queimados, queimaram os meus olhos, olhos queimados, nem doeu tanto assim, não doeu tanto assim, Terezinha de Jesus, o segundo seu irmão, que Teresa deu a mão...
Lina, Lina. Estou morto. Não consigo morrer.
Quero brincar com os cabelos de Lina, ela amolece, conversamos sobre a estupidez das penas de morte. Lina corrige: estupidez das penas, não da morte. Amolecer. E fuder. Acho que vou adormecer.
Não deixam. O mesmo som abafado chocando contra o meu crânio. Ainda há sangue que desliza morno, sinto, é morno, escorre sobre os meus olhos cegos e há uma corrente elétrica. Dor em tiras, como tiros, disparos, metralhadora no corpo inteiro e tudo desaparece outra vez numa avalanche de lama. Desapareço na lama. Barro escuro.
E não morro. E não morro. A tortura é uma dor comprida que é só comprida. Dura. Perdura. Não muda. Dor por dor.
Acordo. Cama macia e quente. Silêncio e um cheiro de comida boa. Um cobertor leve. Enlouqueci, só pode. Fico apavorado. Um dia, Lina disse que ela já estava morta havia tempo. Lina nunca diria uma coisa dessas. Estou morto? Ou melhor, diria, diria sim. Lina é meu amor. Ri safada, me lambe, gargalha, segura o meu pau, calma, vejo olhos molhados, bandida, me chupa, me chama, geme e eu...
Que olhos? Lina! Que olhos? Eu não me lembro.
O tempo. O tempo. Há sossego e paz. Paz, paz, pai, papai, papa, pa, az, az, z, z.... Eu não consigo morrer.
- Como vamos aqui? Estão te tratando bem?
A voz. A voz. O João. O João? Não. O João não.
- Tem medo de alicate, né?
O João. A voz. O Caqui. João, João... A risada do João. Joãobalalão, o senhor capitão, o pião, o pião entrou na roda, roda pião, bambeia pião, roda pião, bambeia pião... o pião... o pi...


Magda Maria Campos Pinto - quasesertao@gmail.com
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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

HOJE, EU, A DOR...

"Escrevo-te na hora mesma em si própria. Desenrolo-me apenas no atual. Falo hoje - não ontem nem amanhã - mas hoje e neste próprio instante perecível. Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo - mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias? Estou asperamente viva. Vou embora - diz a morte sem acrescentar que me leva consigo. E estremeço em respiração arfante por ter que acompanhá-la. Eu sou a morte. É neste meu ser que se dá a morte - como te explicar? é uma morte sensual. Como morta ando por entre o capim alto na luz esverdeada das hastes: sou Diana a Caçadora de ouro e só encontro ossadas. Vivo de uma camada subjacente de sentimentos: estou mal e mal viva!

in Água Viva, Clarice Lispector, Rocco,SP, 2001.

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NÓS ESTAMOS DE LUTO.

Passo para dizer que estamos ausentes aqui, por ora, porque estamos trabalhando em outros territórios. Estamos de luto, mas estamos tra...