terça-feira, 30 de abril de 2019

Quarto conto do livro INCONTÁVEIS, de Magda Maria Campos Pinto.



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A VIDA DE URI

Ele nasceu numa tarde chuvosa no chão do Pronto Socorro porque não havia leito vago, e tampouco houvera tempo para qualquer outra providência. A mãe, uma menina pequena de grandes olhos negros e ausentes, trazida pela polícia, chegou já em pleno trabalho de parto. Segundo o policial, ela tinha quinze anos, vivia nas ruas, fumava crack e não tinha família; não sabia quem era o próprio pai, e muito menos o do bebê. Aliás, a menina era toda distância e nada dizia, apenas balbuciava incoerências enquanto o filho escorregava por entre suas pernas no caótico corredor do Pronto Socorro.
Nasceu esgotado e trêmulo, mas sossegado; e não chorou. Abriu negros olhos brilhantes e aconchegou-se nos braços da enfermeira que o recolheu no chão. Parecia um anjinho cansado e mudo que, por alguns minutos, comoveu e calou a babel do corredor do hospital. Logo depois, ele foi levado pela assistente social, uma mulher jovem, apressada e aflita. Da menina mãe, pálida criança, não se teve mais notícias. Dizem que desapareceu pouco depois. Contam também que em seus murmúrios incongruentes suspirava cantigas de roda enquanto o bebê escapulia entre sangue e água no chão frio e imundo.
Ester e Tiago eram muito conhecidos e amados pela comunidade.  Casal de cidadãos conscientes, preocupados com os graves problemas sociais, eles prestavam serviços voluntários no hospital. Não tinham filhos, não por falta de desejo e empenho. Essa frustração era a única nuvem na felicidade do casal.

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Naquela tarde, Ester se deparou com a assistente social perambulando aflita com o bebezinho enrolado nos braços, que, ao vê-la, se iluminou e teve certeza da existência de Deus.
- ‘’Ester, Ester, seu filho, seu filho chegou, suas preces foram ouvidas... ’
Ester ficou sem palavras e acompanhou a jovem com uma sensação de tempo suspenso, de despreparo e de humildade. Viu-se diante do diretor do hospital assinando papeis sem ler e recebendo nos braços um bebê quieto, com grandes olhos acesos, profundos, molhados, indizíveis, infinitos.
Do infinito, Ester ouviu ‘mamãe’ e, andando nas nuvens, voltou para casa. Chorava de pura alegria enquanto lavava, vestia e alimentava o inesperado filho angélico. Pouco depois, Tiago, também em prantos, ninava o anjo e repetia: ‘filhinho, filhinho’.
Chegou tão de repente, tão a seu modo, que nem sabiam como chamá-lo. Ao longo de anos, eles tinham feito listas e mais listas de nomes para um desejado filho, mas agora nenhum deles combinava com repentina dádiva divina. Tal pensamento – presente de Deus - despertou Ester que, grávida de lembranças imemoriais, decidiu chamá-lo Uri. Justificava-se dizendo que ‘Uri’ quer dizer ‘minha luz’ em seu já longínquo hebraico, e que assim reencontrava os antepassados e seu próprio deus de impronunciável nome. Tão convencida estava da vontade divina presente naquela criança que Tiago só pode aprovar e aplaudir.
E Uri tornou-se o sol de suas vidas.
Ao completar um ano, ele já caminhava firme, sorria de modo irresistível e encantava a todos. Uri não adoecia, pelo contrario, crescia forte, rápido, cheio de curiosidade e inteligência. Era um pouco tímido, um tanto reservado, às vezes até mesmo arredio, mas sempre encantador. Falava pouco e gostava de ouvir. Sorria francamente. E a vida fluía generosa para a família abençoada por Deus.
Os quinze anos de Uri foram comemorados com uma viagem ao redor do mundo que durou um ano inteiro. Ester e Tiago gostavam de história e de arqueologia. Mergulharam, então, nos mais longínquos rincões e encontraram muitas gentes. E por onde passavam Uri brilhava e espalhava alegria.
Quando voltaram de viagem, Uri foi para o colégio novo. Estava ainda mais adorável numa exuberante adolescência. Era tranquilo, sereno e inocente.
Um dia, ao chegar do colégio, encontrou Ester sentindo dores no estômago. Acompanhou-a ao médico. Ela tinha cinquenta anos e estava com câncer. Seguiram-se cinco anos de hospitais, cirurgias, quimioterapias, dores e morfinas.
Mãe ficou murcha, mirrada e fosca; o filho era ternura e boa vontade. Uri tornou-se homem feito do dia para noite sem perder o encanto. De grandes olhos molhados, caminhava sondando o chão com o peito empurrado para dentro. Homem de poucas palavras, na verdade, monossilábico, mas cheio ideias indizíveis que transbordavam dos olhos úmidos. Todos os sentimentos se encontravam nos olhos de Uri, e todos os seus gestos eram de dedicação e ternura.
Tiago, por outro lado, tornou-se triste e apático. Uma melancolia só.
Mãe morreu nos braços de Uri que, chorando lágrimas em cascata, acariciava-lhe a cabeça nua e pálida silenciosamente. Beijava-lhe a testa repetidas vezes.
Cuidou dos funerais e apoiou Tiago no caminho de volta do cemitério. Passou a preparar o café da manhã e a cuidar do pai, agora acabrunhado e sem rumo. Uri cursava história e estudava com prazer. À noite, voltava para casa, fazia o jantar, servia o pai, lavava a louça e se sentava para conversarem. Falavam de tudo; histórias do mundo, dos povos, da vida. Uri falava devagar e baixo, e quando sorria era em silêncio. Não mudava nunca, sempre os mesmos grandes olhos negros cheios de infinitos.
Estava na faculdade quando se lembrou de que era dia de seu aniversário de vinte e um anos. Decidiu voltar mais cedo e comemorar com pai. Comprou vinho, uma bela massa e um presente para Tiago: um livro de história. Uri estava feliz por presentear o pai no dia em que completava vinte e um anos.
Encontrou-o sentado na poltrona de sempre, aparentemente cochilando, cheio de serenidade. Mas Tiago estava morto. Infarto fulminante.
Uri chorou sem murmúrios, guardou o livro, o vinho, a massa e, uma vez mais, cuidou dos funerais com piedosa dedicação. Recebeu sozinho e educadamente os cumprimentos da comunidade inteira, que muito o admirava e que, agora, se encontrava perplexa, compadecida com o destino daquele anjo. 
Era fim de tarde, crepúsculo frio, quando Uri encontrou-se sozinho em casa. Trancou a porta e sentou-se na poltrona de Tiago. Olhou o redor com vagar, observando e reconhecendo cada canto, cada objeto, cada delicadeza. Não sabia o que fazer e nenhum pensamento se lhe formava. Continuou sentado, imóvel, distante, mergulhado em infinitos.
Era noite escura e alta quando no vazio do pensamento, impensadas palavras começaram a brotar no vazio negro da mente de Uri, como um fiozinho de água escoando de mansinho sob uma porta fechada e inundando tudo.
- ‘O cravo brigou com a rosa’.
- ‘O cravo brigou com a rosa’.
- ‘Debaixo de uma sacada’.
- ‘Debaixo de uma sacada’.
Um pequeno ruído na fechadura da porta da casa não o despertou.
- ‘O cravo saiu ferido’.
- ‘O cravo saiu ferido’.
Novo ruído muito mais forte na fechadura da sala.
- ‘A rosa despedaçada ’
- ‘A rosa despedaçada ’.
A porta da casa se abriu num repente e três homens armados surgiram diante de Uri, que lhes abriu seu mesmo e único sorriso. Tentou levantar-se, mas foi brutalmente jogado de volta contra a poltrona. Um homem apontava um revólver e berrava:
- ‘Quieto, quieto, ou morre!’
Uri não compreendia; manteve-se sentado, quieto, de olhos bem abertos, enquanto o homem tremia e gritava com os outros dois:
- ‘Rápido, rápido... ’.
Dois homens corriam pela casa derrubando coisas, chutando portas, abrindo gavetas e recolhendo objetos em sacos de plástico.
 O primeiro continuava trêmulo mirando a cabeça de Uri, que o observava sem compreender. Os olhos de Uri estavam voltados para dentro; palavras continuavam crescendo dentro dele. E, de repente, ele murmurou:
- ‘O cravo ficou doente’.
- ‘O cravo ficou doente’.
O homem armado arregalou os olhos e berrou “calado!”. Uri não se moveu e o homem gargalhou:
- ‘É imbecil, oh, o babaca, idiota, oh, ó, o cara... ’.
Baixou o revólver balançando a cabeça.
Uri continuava tranquilo, sentado, quieto, balbuciando:
- ‘A rosa foi visitar’.
- ‘A rosa foi visitar’.
Os homens, esquecidos de Uri, andaram livres pela casa. Passavam de um cômodo para outro pegando o que lhes apetecia.  Chegaram à cozinha e esvaziaram a geladeira. Ligaram o fogão e comeram deliciosa massa. Na copa, beberam vinho e depois, na sala, jogaram-se sobre o sofá. O vinho aqueceu. Buscaram mais e encontraram uísque. A excitação crescia e eles começaram a brincar. Entre gargalhadas e piadas, defecaram e urinaram ali mesmo, sobre os sofás e tapetes.
A euforia e o frenesi tomaram conta. Revisitaram a casa quebrando coisas, destruindo as plantas, emporcalhando as paredes. De volta à sala, encontraram Uri quieto, distante, ainda murmurando:
- ‘O cravo teve um desmaio’.
- ‘O cravo teve um desmaio’.
Gargalharam. Desnudaram-no, o espancaram e estupraram. Já cansados, acertaram-lhe três tiros. Cada homem, um disparo.
Saíram da casa manhã chegando. O dia estava suave e fresco. Levaram o carro de Uri.
Três dias depois os vizinhos chamaram a polícia. Alguma coisa não cheirava bem, ali nas redondezas.
E o anjo havia desaparecido.

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